Auto-Retrato, João Melo
por Teresa a 25.7.08
Todos os materiais servem ao poeta: /o som de um tambor, /a angústia de uma mulher nua, /a lembrança de uma utopia.. Assim versa João Melo, sobre as estrelas e detritos que a vida deposita, diariamente, no altar sacrificial da poesia. Ao autor, conhecemo-lo há alguns anos por nos enriquecer com a sua ficção de sangue angolano. Agora, em urgente hora, chega-nos no misticismo mais profundo e íntimo de um Auto-retrato poético, o primeiro de cinco volumes de poesia do escritor, que é também jornalista, publicitário e professor.João Melo vai estar num Encontro e Sessão de Leitura com os seus leitores, no Auditório da Byblos Amoreiras, no dia 30 de Julho, pelas 18h30.
Este é um «Retrato sem Moldura», refere a brasileira Tânia Macedo no posfácio, aludindo à abertura do escritor «a novas dimensões do poetar». Diz o poeta que para se amar um poema «é preciso ter coração e /sangue nas veias. / E que o poema seja uma carícia / ou um soco na boca do estômago. ». Sobre esta poesia visceral, dizemos nós que é, sobretudo, o retrato de um filho do chão africano que, pela palavra de dimensão humana, se projecta na universalidade retratando-a.
Auto-Retrato é o primeiro de cinco títulos a serem editados pela Caminho, editora incansável no apoio que há muito dá à literatura Africana de Expressão Portuguesa. Sem se tratar de uma Antologia, os volumes coligem poemas de uma produção que se iniciou em 1970 – com o primeiro poema escrito tinha João Melo 15 anos e que se encontra incluído neste primeiro volume – e são o resultado de um «pré-balanço» que o poeta faz da sua poesia, refere a Editora.
Este primeiro tomo assume uma «linha lírico-intimista» e, ainda segundo a Editora, seguir-se-á Cântico da Terra e dos Homens, numa «ousada linha amorosa», Amor, «com fortes e explícitas implicações eróticas», Polis, Poiesis, «uma declarada linha sociopolítica» e Exercícios e Linguagens, «numa linha experimentalista, assente numa busca multiforme de todas as possibilidades criativas do texto». À semelhança deste «Auto-Retrato», os restantes volumes incluirão um posfácio com uma breve análise crítica feita «por um professor português, africano ou brasileiro de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa».
Detritos do tempo
Nascido em Luanda em 1955, João Melo abre o seu retrato com um poema escrito com apenas 15 anos, que surpreende pela inscrição do quotidiano que figura nos restantes. Era, cedo, o chamamento da poesia, pois ela é «a linha da vida». Colocando-se o poeta «nas esquinas», «nas curvas e contracurvas» ou no lugar «onde o vento faz a curva» nasceria forçosamente uma poesia livre de amarras que a caracterizassem, e que iria consubstanciar-se em «poemas sem rumo e desprovidos de qualquer intenção» a não ser a de tactear um qualquer sinal longínquo: «Amanhã, /um sinal qualquer, misterioso e sem nome, /dirá: aqui esteve alguém que, silencioso, /colheu o doce segredo das tempestades».
A infância dos «cajus polpudos» e das «mangas vermelhas como o sol»; a «guerra, Guerra»; «crianças de olhos vivos esperançosos»; «promessas delirantes de amor»; o «país enorme exangue»; «a face gorda da fome»; «o néon das noites urbanas»; a «mítica paz dos campos»; o «Perfume do churrasco»; o som dos tambores; o canto da quianda, as despedidas – «o moinho das mãos acenando dos aeroportos» –; os ares estrangeiros, «os dedos» e «os olhos» ao vento fora de África; o comboio entre Lisboa e Queluz; a infância, sempre «série exaltada de fragmentos singelos»: são detritos resgatados no passar dos dias de uma vida, com que o poeta se constrói.
A memória depura esses detritos, a poesia recebe-os na corrente sanguínea negando a acção destrutiva do tempo: tristezas e esperanças, desejos e utopias, tudo encontra o caminho do «voo e pousa, de repente, no poema».
Deixem-se «Algumas definições» com que se tece a poesia de João Melo:
Flor: ser frágil que cresce
quando menos se espera
Morte: para alguns o fim;
para outros o princípio
– o poeta abstém-se,
pois não se lembra de já ter morrido
Mulher: ?
Pão: massa de farinha água e sal
cozida no forno e que
além de várias formas
recebe nomes diversos
– às vezes quando falta
provoca revoluções
Pedra: obstáculo se no meio do caminho
arma para abrir caminhos
Poesia: ofício doloroso que consiste
em semear mentiras em desertos
para que delas cresçam as verdades mais puras
Vida: aventuratragédiasonhopesadelo:
casco de navio tantas vezes podre
a que se agarra o náufrago
Este é um «Retrato sem Moldura», refere a brasileira Tânia Macedo no posfácio, aludindo à abertura do escritor «a novas dimensões do poetar». Diz o poeta que para se amar um poema «é preciso ter coração e /sangue nas veias. / E que o poema seja uma carícia / ou um soco na boca do estômago. ». Sobre esta poesia visceral, dizemos nós que é, sobretudo, o retrato de um filho do chão africano que, pela palavra de dimensão humana, se projecta na universalidade retratando-a.
Auto-Retrato é o primeiro de cinco títulos a serem editados pela Caminho, editora incansável no apoio que há muito dá à literatura Africana de Expressão Portuguesa. Sem se tratar de uma Antologia, os volumes coligem poemas de uma produção que se iniciou em 1970 – com o primeiro poema escrito tinha João Melo 15 anos e que se encontra incluído neste primeiro volume – e são o resultado de um «pré-balanço» que o poeta faz da sua poesia, refere a Editora.
Este primeiro tomo assume uma «linha lírico-intimista» e, ainda segundo a Editora, seguir-se-á Cântico da Terra e dos Homens, numa «ousada linha amorosa», Amor, «com fortes e explícitas implicações eróticas», Polis, Poiesis, «uma declarada linha sociopolítica» e Exercícios e Linguagens, «numa linha experimentalista, assente numa busca multiforme de todas as possibilidades criativas do texto». À semelhança deste «Auto-Retrato», os restantes volumes incluirão um posfácio com uma breve análise crítica feita «por um professor português, africano ou brasileiro de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa».
Detritos do tempo
Nascido em Luanda em 1955, João Melo abre o seu retrato com um poema escrito com apenas 15 anos, que surpreende pela inscrição do quotidiano que figura nos restantes. Era, cedo, o chamamento da poesia, pois ela é «a linha da vida». Colocando-se o poeta «nas esquinas», «nas curvas e contracurvas» ou no lugar «onde o vento faz a curva» nasceria forçosamente uma poesia livre de amarras que a caracterizassem, e que iria consubstanciar-se em «poemas sem rumo e desprovidos de qualquer intenção» a não ser a de tactear um qualquer sinal longínquo: «Amanhã, /um sinal qualquer, misterioso e sem nome, /dirá: aqui esteve alguém que, silencioso, /colheu o doce segredo das tempestades».
A infância dos «cajus polpudos» e das «mangas vermelhas como o sol»; a «guerra, Guerra»; «crianças de olhos vivos esperançosos»; «promessas delirantes de amor»; o «país enorme exangue»; «a face gorda da fome»; «o néon das noites urbanas»; a «mítica paz dos campos»; o «Perfume do churrasco»; o som dos tambores; o canto da quianda, as despedidas – «o moinho das mãos acenando dos aeroportos» –; os ares estrangeiros, «os dedos» e «os olhos» ao vento fora de África; o comboio entre Lisboa e Queluz; a infância, sempre «série exaltada de fragmentos singelos»: são detritos resgatados no passar dos dias de uma vida, com que o poeta se constrói.
A memória depura esses detritos, a poesia recebe-os na corrente sanguínea negando a acção destrutiva do tempo: tristezas e esperanças, desejos e utopias, tudo encontra o caminho do «voo e pousa, de repente, no poema».
Deixem-se «Algumas definições» com que se tece a poesia de João Melo:
Flor: ser frágil que cresce
quando menos se espera
Morte: para alguns o fim;
para outros o princípio
– o poeta abstém-se,
pois não se lembra de já ter morrido
Mulher: ?
Pão: massa de farinha água e sal
cozida no forno e que
além de várias formas
recebe nomes diversos
– às vezes quando falta
provoca revoluções
Pedra: obstáculo se no meio do caminho
arma para abrir caminhos
Poesia: ofício doloroso que consiste
em semear mentiras em desertos
para que delas cresçam as verdades mais puras
Vida: aventuratragédiasonhopesadelo:
casco de navio tantas vezes podre
a que se agarra o náufrago
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