Os três primeiros romances de Haruki Murakami formam uma trilogia a que se chama a Trilogia do Rato. As três obras são narradas pela mesma personagem, cujo nome nunca se conhece, que tem um amigo designado como o Rato – ao qual a trilogia vai buscar o nome. Os dois primeiros romances – Hear the wind sing (1979) e Pinball, 1973 (1980) – não se encontram em circulação fora do Japão, porque, segundo consta, Murakami considera-os menores e não quer que sejam publicados (existem traduções nos Estados Unidos, mas estão há muito esgotadas).

O seu terceiro romance, que conclui a Trilogia do Rato, já é pacificamente aceite pelo seu autor e está traduzido em inúmeras línguas, incluindo o português, na Casa das Letras, com o título Em busca do carneiro selvagem. Foi publicado no Japão em 1982.

Seis anos depois, em 1988, Murakami regressou a este narrador sem nome da Trilogia do Rato, com o romance Dança, Dança, Dança. Sendo certo que é uma sequela de Em busca do carneiro selvagem, não é, contudo, inserido na trilogia, uma vez que aqui não figura já a personagem do Rato.

Dança, Dança, Dança, título que Murakami foi buscar a uma música dos Beach Boys, é um romance sobre um homem perdido, desligado da realidade, sem laços que o unam a algo. A obra começa com a referência à morte do seu gato. Os gatos, assim como a música, são elementos obrigatórios nos livros de Haruki Murakami, utilizados pelas personagens, implicitamente, como forma de atenuar a solidão. Aqui, quando a primeira acção com que nos deparamos é a do narrador a enterrar o seu gato morto, sabemos que estamos na presença de alguém cuja solidão ficou mais despida, mais difícil de disfarçar. A personagem não tem amigos, não tem uma relação estável. As únicas coisas que tem são o seu apartamento, o seu pequeno Subaru em segunda mão e trabalho, muito trabalho, que lhe ocupa praticamente todo o tempo. E ainda bem que assim é, porque sem o trabalho não saberia o que fazer do tempo.

No entanto, há um sonho recorrente que atormenta esta personagem. Por causa do sonho, sente que alguém está a chorar por ele no Hotel Golfinho. E esse alguém só pode ser Kiki. O Hotel Golfinho e Kiki são elementos que estão presentes no romance Em busca do carneiro selvagem. E embora se possa ler este Dança, Dança, Dança sem ter lido o outro, a verdade é que ajuda a compreender.

A partir destes sonhos, e da certeza de que alguém precisa de si no Hotel Golfinho, o narrador decide meter-se no avião para a cidade de Sapporo, onde fica o hotel. Assim começa a viagem onde percebe que é um homem perdido que precisa de se encontrar. Umas vezes mais por acaso do que outras, acaba por se ligar, finalmente, a pessoas. Uma recepcionista do Hotel, uma jovem de treze anos (Yuki) com quem viaja de regresso a Tóquio e um antigo colega de escola, agora actor.

No Hotel Golfinho, completamente transformado em relação ao que o protagonista conhecera quando lá estivera com Kiki, encontra o Homem-Carneiro, que o guia para o encontro consigo mesmo. O conselho que este lhe dá é muito simples: ele só tem de dançar. Dançar o melhor que puder, dançar tão bem que deixe toda a gente espantada. E é isso todo o romance: o narrador protagonista a dançar o melhor que pode, isto é, a viver o melhor o que pode, deixando que as coisas à sua volta aconteçam.

Não sendo tão rico em elementos fantásticos como outras obras do autor, por exemplo Kafka à beira-mar (de que se falou aqui), é inegável o cunho de Murakami. Isso nota-se na presença de personagens bizarras como o Homem-Carneiro – um homem misterioso, coberto com uma pele velha de carneiro e uma máscara de carneiro no rosto –, o poeta que não tem um braço ou a sua companheira, a fotógrafa, mãe de Yuki, que se esquece que tem uma filha, de tão embrenhada que está no seu trabalho. As referências musicais, características do autor japonês (que trabalhou numa loja de discos enquanto adolescente e, mais tarde, teve um bar de jazz), são abundantes e vão desde os Beach Boys e dos Talking Heads, aos nomes do jazz como Chet Baker ou Gerry Mulligan. Mesmo a própria temática do romance é típica da prosa de Haruki Murakami: um homem perdido no “mundo moderno”, na sociedade japonesa cada vez mais capitalista.

De facto, Haruki Murakami é, em toda a abrangência do termo, um escritor contemporâneo. Debruça-se sobre o mundo actual – as sociedades consumistas, o capitalismo selvagem, as cidades caóticas, as pessoas perdidas, a incomunicabilidade – e faz disso a sua matéria-prima. E fá-lo bem. Os seus romances são, simultaneamente, densos e fáceis de ler. Fluem a um ritmo constante que, não sendo rápido, é de tal forma cativante que o difícil é parar de ler. E, sem que se aperceba disso antes, o leitor dá-se conta que está, realmente, a pensar sobre o que lê e não apenas a ler. Isto porque Murakami, ao invés de nos inundar em pensamentos e reflexões, dá-nos situações, atitudes e diálogos que caracterizam irrepreensivelmente as personagens e os seus caracteres.

Sendo um autor que vende muitíssimo, um verdadeiro best-seller, Murakami não deixa de ser um grande escritor. É aquilo a que se pode chamar um escritor pop. A sua escrita é descomplexada e despretensiosa. Os seus livros estão cheios de referências musicais e cinematográficas actuais; vai buscar títulos a bandas como os Beach Boys ou os Beatles; situa as narrativas no mundo contemporâneo e é dos problemas do mundo contemporâneo que fala. Tudo motivos para que o leitor actual se consiga, facilmente, rever naquilo que lê.

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