Possibilidades: A imaginação como horizonte (Parte I)
por Diogo Duarte a 29.8.08
Este texto não é sobre nenhum livro em particular. É sobre um conceito abstracto a que chamarei “pensamento utópico” e que abarca tanto as utopias como as distopias. Possibilidades é o título para uma proposta simples a que este texto serve de mote. O objectivo é navegar pela literatura utópica e distópica, atravessando quando necessário a fronteira do género literário ficcional para abarcar o campo reflexivo e científico que lhe é dedicado. Pareceu-me proveitoso iniciar esta espécie de ciclo, sem um fim determinado ou regularidade absoluta, através dum texto introdutório e crítico que abordasse algumas das características, utilidades e perigos do pensamento utópico, justificando em simultâneo a importância desta iniciativa à luz da sua relevância para o mundo contemporâneo. O objectivo parece ambicioso, mas não tem pretensões maiores do que aquelas que uma leitura descomprometida pode suscitar. Na realidade, este texto será aquele em que provavelmente irei mais longe sobre o assunto. Rendo-me ao respeito que impõe uma área com séculos de existência, com inúmeras afinidades e que gerou e continua a gerar inúmeras obras, não apenas de ficção mas também toneladas de estudos e ensaios académicos, além da sua profunda influência em muitos elementos da nossa moral e da própria história da humanidade.Se não fosse possuidor desta dimensão, talvez o pensamento utópico não tivesse como continuar a assustar e a contagiar tanta gente como ainda acontece nos nossos dias, servindo de alimento a muitos sonhos e pesadelos e voltando a ressurgir de tempos em tempos com nova intensidade, ora como um sinal de esperança, ora como um grito de alerta. Possibilidades (título roubado ao livro do antropólogo David Graeber, publicado em 2007) é um título propositadamente neutro para nomear este percurso. Limita-se a tentar representar o discurso utópico, não de uma forma maniqueísta – o sonho de uma sociedade perfeita ou o pesadelo de uma sociedade castradora e monolítica – mas muito simplesmente enquanto uma fonte de alternativas e de possibilidades que não têm que ser, necessariamente, boas ou más.
Se olharmos para a história do pensamento utópico, vemos que o seu principal feito foi, e continua a ser, acima de tudo, o de impedir que os horizontes se fechassem, recordando-nos constantemente da dinâmica incontornável da história e da condição humana, feita de retrocessos e progressos, de sucessos e insucessos, feita de esperanças, vitórias e desilusões. Enquanto forma de pensamento que vai para lá da ficção e influenciou muito mais do que um género literário ao longo da nossa história, podemos, por isso, usá-lo num sentido mais amplo do que aquele que lhe é geralmente aplicado – o de desejado mas impossível no caso da utopia, ou de indesejado embora que mais concebível (talvez como consequência da ideia pessimista que construímos e que prevalece no senso-comum relavitamente à natureza do ser humano) no caso da distopia. São estas perspectivas que levam a que a distopia tenha um impacto aparentemente mais vivo e transversal no pensamento humano, pois é associada com mais facilidade a alguns acontecimentos trágicos reais, que ainda hoje perturbam o nosso imaginário, tal como o Nazismo ou o regime Comunista soviético, contrariamente à utopia que é vista como sendo construída no sentido inverso, isto é, não como tendo uma relação ou origem tão directa em acontecimentos reais mas antes na própria imaginação. Esta visão será desafiada no decorrer deste texto. Não com o objectivo de minimizar ou questionar o impacto devastador destes episódios da nossa história, nem o de questionar a ideia de que o pensamento distópico foi uma consequência mais ou menos directa do pensamento utópico. O único propósito é ir mais além quanto à abordagem dos dois conceitos, apresentando-os como fenómenos históricos e antropológicos, o que implica questionar mais a visão que temos da utopia do que a que temos da distopia. Para podermos fazer este exercício, temos que aceitar a sua profunda ligação com o real e, acima de tudo, que ambas constituem possibilidades (e não apenas a distopia), mantendo sempre a devida distância daquilo que originou as verdadeiras desgraças associadas ao pensamento utópico: o facto de terem sido tomadas como verdades científicas.
O despertar das utopias
Já com uma longa vida, a utopia é mais uma forma de pensamento do que o título de um livro ou o nome de um género literário, não fosse a sua existência provavelmente tão velha quanto a do pensamento humano. Quando não é usada como adjectivo para impossível ou irreal, é encarada como um exercício imaginativo para pensar o futuro. No entanto, colocá-las num tempo que aparentemente fica para lá do nosso alcance, parece falhar muitas vezes a noção de que as utopias e distopias nascem num dado lugar e num dado tempo em mentes que, por muito visionárias que possam ser, não se conseguem desprender do próprio mundo em que habitam. Este factor torna-as tão importantes para pensar o futuro como para pensar o presente, ou mesmo o passado, principalmente quando nos questionamos sobre o que as motiva, o que as provoca e o que as origina. Quanto desta forma de pensamento pode ser usado para pensar o tempo em que são construídas é uma incógnita muitas vezes desprezada por nos limitarmos a olhá-las como ficção, sonhos ou pesadelos.
Ao nascer dentro de uma cosmologia específica, a utopia deve ser, num certo grau, considerada uma extensão dos seus valores, seja como uma forma de redefinição dos mesmos, como a sua intensificação ou até corrupção. Há quem tenha defendido que os discursos utópicos são projectos de aniquilação da moral, uma ideia bastante generalista e contestável mas que tem pelo menos a vantagem de reconhecer a ligação das utopias com o mundo em que emergem. No entanto, o preço deste reconhecimento é uma forma de conservadorismo que parece assumir que toda a forma de pensamento que entre em ruptura com o mundo em que vive parece ser, à partida, condenável. Assumir que é legítimo questionar a moral vigente não é o mesmo que defender uma forma de relativismo moral. Antes pelo contrário, já que apenas podemos alcançar um modelo moral válido e racional se este puder ser exposto ao pensamento crítico e se for confrontado com dados empíricos ou considerações filosóficas. A utopia parece ser de facto, em grande medida, uma dessas importantes formas de questionar alguns dos elementos do nosso pensamento moral desde que permaneça um exercício de imaginar possibilidades. Contudo, devemos perguntar-nos de que forma o faz, já que esse questionamento pode ocorrer de muitas formas: questionando, por exemplo, se a vida que vivemos é coerente com a moral que afirmamos que nos guia ou que defendemos; questionando a moral entrando em ruptura com os seus princípios básicos; ou questionando-a ao intensificar ainda mais a presença desses princípios no seu imaginário utópico. Com base nisto, podemos esboçar algumas perguntas que podem ser feitas sobre o utopismo e que ficam, por agora, em aberto: será o ideal utópico uma inversão imaginária do presente ou antes uma proposta com um imaginário social essencialmente novo? Será que possui uma ética própria ou constitui apenas uma ética invertida daquela da sociedade em que vive? Será a ausência de moral, ao aniquilá-la, como alguns defenderam ser o seu propósito, ou será antes uma proposta moral nova e, como tal, uma reafirmação da importância da moral ao invés da sua simples destruição? Para responder a isto, é necessário olhar para a relação das utopias com o seu contexto e podemos começar por fazê-lo reflectindo sobre a sua origem e sobre alguns dos factores que geralmente parecem estar ligados ao seu surgimento.
Apesar de podermos situar, tanto no tempo como no espaço, a origem e o desenvolvimento do pensamento utópico enquanto um campo de pensamento autónomo (a partir da obra de Thomas More que a denominou), não é difícil justificar a afirmação de que esta é uma forma de pensamento com uma existência provavelmente tão longa quanto a do pensamento humano. Podemos remontar à antiguidade clássica e evocar a célebre obra de Platão, A República, que serviu de influência ao livro de More. Mas podemos também estabelecer que A República constitui apenas um dos primeiros registos escritos desse tipo imaginário, já que a idealização de mundos distantes, no espaço ou no tempo, pode ser encontrada até na cosmologia de qualquer pequena sociedade sem escrita, seja na sua religião ou na sua mitologia.
Mas há pelo menos dois factores que parecem contribuir especialmente para que o desejo ou o temor de um mundo diferente emerjam, e apontá-los parece-me ser necessário para reforçar a ideia de que o pensamento utópico é indissociável do pensamento humano: são eles o descontentamento e a diferença. O descontentamento porque não me parece que a necessidade de idealizar uma nova sociedade tenha tendência a surgir quando uma pessoa está minimamente satisfeita com o mundo em que vive. Em primeiro lugar, tal empreendimento intelectual questiona a moral dominante e questiona a inevitabilidade dos comportamentos e das instituições existentes (mesmo que só existam fora da sua própria sociedade). Em segundo lugar, imaginar a possibilidade de uma sociedade melhor ou a de uma sociedade pior, propicia um sentimento de segurança: no caso da sociedade melhor quando apresentada como um futuro inevitável e, assim, encarada como uma espécie de profecia ou um destino inequívoco em direcção ao qual caminhamos; no caso da sociedade pior e, como tal, temida e indesejada, porque reflectir sobre a sua possibilidade constitui um sinal de alerta capaz de reduzir a ameaça que representa.
Indissociável do descontentamento é o outro factor fulcral para o pensamento utópico: a diferença. A importância da diferença é particularmente óbvia se reflectirmos, por exemplo, sobre o que serve de estímulo ao pensamento utópico e em que condições este tem tendência a emergir. Muitas vezes o descontentamento não é suficiente e há até a possibilidade deste estar adormecido, sendo necessário que algum factor o desperte da sua letargia. O célebre antropólogo francês Claude Levi-Strauss afirmou, em Raça e História, que é com base nas diferenças que a humanidade progride e essa é a razão pela qual esta deve ser preservada. O homem ao olhar os seus semelhantes, separados no espaço ou no tempo, foi construindo e redefinindo os seus padrões culturais: nem sempre em oposição, mas muitas vezes em sintonia com o que encontrou, mesmo que para se distinguir de outros.
A Utopia de Thomas More constitui um exemplo particularmente significativo da importância da diferença como estímulo para a imaginação humana, ao surgir numa época muito específica, abalada por um dos acontecimentos mais importantes para o desenvolvimento do pensamento ocidental – a da descoberta do Novo Mundo –; uma fase em que as consciências viviam adormecidas pela cosmologia cristã que via inatacada a sua concepção do mundo, com o mundo católico no centro e o progresso humano a resumir-se à conquista e à evangelização de todos os povos que a rodeavam, estando assim o fim da história decretado há muito tempo por um objectivo tão incontornável. Foi a descoberta de um novo continente habitado, numa zona caracterizada no imaginário da época por figuras monstruosas e inapropriada para a existência de vida humana, que abalou seriamente a ideia de unidade da nossa espécie, em que todos seriam filhos de deus, e abalou igualmente o caminho a que a humanidade já parecia estar condenada há muito. Tornou-se necessário encontrar uma resposta para o que tinha sido encontrado, encaixar aquelas pessoas ou criaturas numa cosmologia que já tinha o seu inventário há muito encerrado e explicar os seus comportamentos e hábitos estranhos, distintos dos nossos e desafiadores da moral cristã. Com este verdadeiro terramoto nas mentalidades da época, a esperança recebe um novo alento e a ideia de que, afinal, o mundo estava longe de ser todo conhecido serve de estímulo à imaginação dos europeus. Sem ser necessário desenvolver muito mais, a Utopia e o impacto que teve na sociedade da sua época é disso um exemplo feroz. Apresentada através do relato de uma viagem a uma ilha perdida no Oceano Atlântico, muitos procuraram a sua localização real e alimentaram os seus sonhos com a possibilidade da existência de uma sociedade semelhante na Terra.
Este momento em que podemos considerar que o pensamento utópico emergiu e se definiu como um campo autónomo, foi precisamente o momento em que a diferença abalou a humanidade em maior escala. Em seguida, analisarei a relação aparentemente mais discreta do pensamento utópico com a sociedade em que existe, apontando alguns exemplos, e também a sua relação com as ciências sociais.
Ilustração de Lais Pereira
Nota: Este texto foi escrito de uma só vez, mas por uma questão de "arrumação" será publicado em três partes durante as próximas semanas.
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