Tendo já editado alguns romances do escritor turco, galardoado em 2006 com o Prémio Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, a Editorial Presença publicou agora um livro de memórias do autor, centrado na sua cidade natal: Istambul. Traduzida por Filipe Guerra, a obra é profusamente ilustrada por gravuras e fotografias da cidade, assim como da família Pamuk, que a enriquecem inquestionavelmente e que aliviam o tom um pouco maçudo que alguns capítulos assumem.

Istambul – Memórias de uma Cidade não é um guia turístico, uma enciclopédia ou um volume histórico. Apesar de haver um pouco de tudo isso, a espaços, o livro é exactamente aquilo que diz ser – um livro de memórias – e nunca o leitor se esquece desse facto. Por esse motivo, este não será tanto um livro para quem goste de Istambul ou, mesmo não conhecendo, tenha curiosidade em relação à cidade, mas antes um livro para quem gosta de Orhan Pamuk ou tem a curiosidade suficiente para querer ler algo mais do que a sua ficção.

Não quer isto dizer que alguém que nunca tenha lido algo do autor não possa pegar neste livro pela sua temática. Pode, de facto, fazê-lo, sem que isso acarrete qualquer consequência para a compreensão da obra. Na verdade, existem capítulos longos dedicados a escritores turcos, a escritores ocidentais que visitaram Istambul, a pedaços da história da cidade, em que a presença da Orhan Pamuk enquanto pessoa (ou personagem) não se faz sentir. No entanto, a obra segue a cronologia da sua vida e acompanha as suas transformações enquanto pessoa, assim como as transformações que a cidade foi sofrendo. Aliás, os capítulos mais centrados no autor e na sua vida familiar são os mais interessantes e que se lêem com maior prazer. Isto pode dever-se também ao facto de os outros capítulos abundarem em nomes de zonas, ruas, bairros e pessoas de que o leitor comum ocidental, que nunca tenha visitado Istambul, nunca ouviu falar.

Pamuk aborda, como seria inevitável, alguns temas praticamente indissociáveis de quando se fala de Istambul ou da Turquia: a queda do Império Otomano (e as ruínas que vão desaparecendo lentamente ao longo dos anos), o desejo de ocidentalização, a melancolia inerente à cidade.

A infância do escritor ficou marcada pela imagem das ruínas desse Império que, a pouco e pouco, se iam destruindo. Particularmente marcantes, para o leitor, são as descrições das inúmeras construções em madeira que ficavam destruídas em incêndios frequentes, presenciados pelas multidões que acorriam ao local para ver o espectáculo. É deveras interessante a forma como os istambulenses lidam com este passado imperial, de grandeza e domínio. A sua ruína é encarada como parte da vida, sem qualquer dramatismo. Os edifícios antigos não são preservados, nem admirados, antes inseridos na paisagem até que, naturalmente, um incêndio ou qualquer outro acidente os destrua.

Esta forma de viver o passado está ligada aos dois outros temas anteriormente levantados. Por um lado, esta ideia de ruína está ligada à melancolia que se sente em Istambul, que não é bem melancolia, nem tristeza, nem nenhum outro termo que se possa traduzir: é o Hüzün. O Hüzün poderá ter a sua origem na queda do Império Otomano, mas introduziu-se de tal forma na cidade e nas pessoas que já não se pode conceber a ideia de Istambul sem esta espécie de melancolia. É este sentimento, também, que origina aquela relação estranha com o passado, que não é bem de indiferença, mas que também não é de afecto ou de repúdio. Por outro lado, o desejo de ocidentalização também potencia o desligamento em relação à herança imperial. Este desejo não vem apenas da população, mas também do poder, uma vez que foram tomadas inúmeras medidas por parte dos governantes que aboliram certas tradições, em prol da ocidentalização.

Um outro elemento indissociável da cidade de Istambul, e que tem uma presença fortíssima na vida Pamuk (e, por isso, neste livro), é o Bósforo – o estreito que separa as duas metades da cidade: a europeia e a asiática. Por ter vivido sempre perto do estreito, ou em casas com vista para este, o Bósforo exerceu um fascínio enorme na vida do escritor. São muitas as vezes que se refere a ele, quer seja recorrendo à sua memória, quer seja através de impressões escritas por escritores estrangeiros.

Depois, há os elementos mais puramente familiares como a relação dos seus pais entre eles, a sua relação com os pais, com o irmão mais velho, com os avós, tios, etc.; porque a família vivia, na sua infância, num prédio comum, em que todos os andares estavam ocupados por membros da família Pamuk.

Estes elementos familiares vão intercalando com os elementos mais dedicados à cidade, conferindo à obra uma maior diversidade mas, como dito anteriormente, sempre ligado à figura do seu autor. É verdade que não se lê como um romance, que em certos capítulos se torna um pouco maçudo e que, eventualmente, poderia ter sido encurtado. No entanto, é também inegável que se trata de um testemunho interessantíssimo, cheio de momentos de grande riqueza descritiva, de grande ternura e emoção.

6 comentário(s):

  1. João Pedro Ferrão disse...

    Só li dois livros dele: A Vida Nova e Neige (este último numa tradução francesa) e gostei imenso de ambos.
    Por acaso já tinha folheado uma tradução inglesa deste livro. Nessa altura pareceu-me interessante e agora, pela tua descrição, acho que vai para a lista de compras.  

  2. André disse...

    Gosto muito do Pamuk, mas tenho-o lido sempre em tradução inglesa. Embirro com traduções indirectas - que eu saiba não há nenhuma tradução directa do turco em português. É um preciosismo, assumo-o. Recomendo "O meu nome é vermelho", sublime.  

  3. Claudia Sousa Dias disse...

    Estou ansiosa por ler não só este mas todos os livros dele!

    CSD  

  4. João Pedro Ferrão disse...

    Por acaso acho que estas traduções do Filipe Guerra (será o mesmo que traduz os russos?) são feitas a partir do turco.  

  5. Claudia Sousa Dias disse...

    espero que sim...

    :-)


    Porque tenciono lê-las em português...


    CSD  

  6. Gonçalo Mira disse...

    O Filipe é, creio eu, o mesmo que traduz os russos. Também não sei dizer, porque a edição não fornece a informação, se a tradução é directa do turco ou não. De qualquer forma, tanto quanto é possível perceber, não detectei problemas de tradução.  

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