Possibilidades: A imaginação como horizonte (Parte II)
por Diogo Duarte a 5.9.08Utopias quotidianas
Já afirmei que o pensamento utópico existe muito para lá do género literário ou artístico. Não é apenas influenciado e despoletado pelo mundo em que vive, mas faz inclusive parte do seu quotidiano nas mais diversas formas. Se olharmos para o dia-a-dia das nossas sociedades podemos encontrar múltiplos exemplos dessa presença, como por exemplo, na religião, na política, na moral ou na cultura popular. O nosso pensamento e as nossas causas continuam preenchidos de utopias. Não há aqui espaço para desenvolver este tópico complexo com profundidade e apenas me proponho a dar alguns exemplos, de forma algo superficial, com o único intuito de mostrar que o utopismo tem uma forte presença no nosso dia-a-dia. Nas quatro áreas que referi, apresento um ou dois exemplos actuais para cada uma e procuro explorar em seguida, de forma sucinta, duas dessas áreas (uma outra exploro na última parte do texto).
A religião fornece-nos inúmeros exemplos de ideais utópicos, mas aqueles que mais se destacam para nós ocidentais são, certamente, a ideia do Paraíso e do Inferno – neste caso um exemplo que poderemos chamar distópico, já que recai no campo do indesejado. Não porque estes locais representem sociedades perfeitas ou imperfeitas, mas porque representam um ideal de harmonia e de paz nas relações humanas ou, por outro lado, de violência e sofrimento eterno no caso do Inferno. Além disso, o paraíso é muito provavelmente a utopia que durante mais séculos contagiou uma franja imensa da humanidade. Junta-se-lhe também a particularidade de nos poder dizer qualquer coisa sobre a esperança humana na mudança, ao projectar para lá da própria vida e da terra a possibilidade de alcançar uma sociedade ideal. Na realidade, não deixa de ser curioso que a influência da cosmologia católica comece a esboroar-se com o aparecimento de certas formas de pensamento e, porque não, ao mesmo tempo que o desenvolvimento do pensamento utópico.
Na política os exemplos são, igualmente, inúmeros: temos, por exemplo, aquele ideal que predomina hoje em dia e que molda em grande medida a nossa moral e os nossos comportamentos – o capitalismo – e temos outro que sob múltiplas formas surgiu ao longo da história em sua oposição – o socialismo. Já na moral, limitemo-nos a apontar que existe uma miríade de questões que podemos congregar numa expressão corrente, a de Direitos Humanos – uma utopia em certo sentido diferente das outras. Na cultura popular, existe, por exemplo, o carnaval, embora a expressão utópica no seu imaginário tenha sido mais forte no passado. Posso começar precisamente pelo carnaval e pela cultura popular para passar em seguida à questão dos Direitos Humanos.
Uma boa referência para esta abordagem é o livro Rabelais and His World, do filósofo russo Mikhail Bakhtin, dedicado à obra do escritor renascentista francês, François Rabelais, e é nele que vou pegar. Neste, Bakhtin mostra-nos muito claramente como, no geral, os ritos e espectáculos organizados à maneira cómica, em especial o carnaval, assumiam no seu decorrer uma forma em tudo distinta das formas de culto e das cerimónias oficiais da igreja ou do estado feudal, propondo mesmo uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente da oficial. Contrariamente às festas oficiais em que os rituais consagravam as desigualdades, no carnaval aboliam-se as relações hierárquicas reinando uma espécie de “contacto livre”, ou seja, uma igualdade no contacto entre as pessoas impossível noutras circunstâncias pela existência de diferenças de diversa ordem, nomeadamente sociais, etárias ou económicas. Bakhtin fala mesmo na criação de uma dualidade do mundo afirmando que tais eventos “pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas”. É por esta razão que não parece ser exagero incluir uma tradição popular, celebrada sazonalmente, num tópico com o nome de “utopias quotidianas”. Na realidade, estas festas ocorriam geralmente mais do que uma vez por ano e chegavam mesmo a durar meses.
A ideia de dualidade do mundo também nos permite lançar uma luz sobre algumas das perguntas que levantei anteriormente sobre a relação da utopia com a moral. O que vemos, neste caso, não é definitivamente uma destruição da moral mas antes uma redefinição dos seus princípios; uma nova proposta moral materializada através da reprodução da sociedade idealizada na prática carnavalesca.
A perspectiva defendida neste texto assemelha-se muito à que é defendida pelo filósofo russo no seu livro relativamente à época a que se refere, ao defender que sem levar em consideração esta vivência utópica, esta dualidade do mundo, “não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média nem a civilização renascentista”. Além disso, o carnaval tem uma proximidade significativa do pensamento utópico ao partilhar algumas das suas características, nomeadamente, e para usar mais uma vez as palavras de Bakhtin, a de “se situar nas fronteiras entre a arte e a vida”.
Saltemos agora para a presença utópica na nossa própria moral, mais concretamente para a ideia dos Direitos Humanos. Esta é uma questão que ganhou especial relevância com a descoberta do novo mundo, inquietada que foi a nossa concepção da unidade da espécie humana. É este um dos “problemas” que nos permite olhar os direitos humanos como uma forma de utopia nos nossos dias. Classificá-la dessa forma não implica que seja algo impossível de alcançar: apenas que deve continuar no nosso horizonte para que continuemos a caminhar na sua direcção. Há que reiterar que a utopia não é uma ilusão por não a termos concretizado; é antes aquilo que ainda não existe e que, embora nos tendamos a aproximar, há de nos continuar a fugir prolongando a nossa perseguição. O escritor sul-americano Eduardo Galeano afirmou uma vez que "a utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Esta frase contorna precisamente o fracasso causado por olharmos as utopias como impossíveis e como uma forma de pensamento ingénuo. Além disso, alerta-nos para outro factor importante que nos impede de sobrestimá-las, de as tomar dogmaticamente ou de as apresentar como verdades científicas: se as utopias servem para nos fazer caminhar, guiando-nos em direcção a um horizonte fugidio, uma das conclusões que devemos tirar é a de que não existem sociedades perfeitas, nem mesmo nas utopias.
Os direitos humanos são uma representação muito fiel da importância das utopias na formulação do nosso pensamento e da nossa conduta diária. Representam um ponto basilar da nossa consciência moral e política e é um dos temas mais discutidos, mais polémicos e na origem de mais lutas nos dias que correm. No entanto, apesar de terem ganho esta centralidade com o pensamento iluminista, a sua história é muito mais longa. É um exemplo perfeito desse horizonte fugidio, alcançado sob a forma de vitórias graduais que nos parecem fazer aproximar cada vez mais desse ideal desejado, por muito que o horizonte se estenda novamente e insista mais uma vez em fugir. Não será difícil acreditar que para um escravo negro no século XVII fosse bastante díficil conceber a possibilidade de algum dia a escravatura acabar (provavelmente esta era uma questão que nem colocava). Mesmo no Ocidente, há não muito mais do que um século atrás ainda era corrente em muitos meios a ideia de que jamais seria possível vir a atribuir o direito de voto às mulheres ou acabar com o uso de mão-de-obra escrava. Infelizmente, as vitórias alcançadas nestes casos são, muitas vezes, apenas parciais, como por exemplo no que toca à escravatura, que insiste em renovar-se e que permanece viva, principalmente no chamado terceiro mundo, muito à custa das necessidades dos chamados países desenvolvidos, embora também não esteja extinta do nosso. No entanto, o que interessa sublinhar é aquele que constitui um facto óbvio: mesmo que a situação actual não seja a ideal em termos de direitos humanos, uma sucessão de progressos notáveis ao longo da nossa história permite-nos hoje dar por garantidos alguns direitos inimagináveis há poucos séculos atrás ou mesmo décadas. E isso só foi possível porque tais possibilidades permaneceram no horizonte, atraindo-nos constantemente na sua direcção.
Utopia e ciências sociais
Reconhecer esta presença da utopia na nossa história ou na vida quotidiana leva-nos à reflexão da sua relação com o campo científico que se dedica ao estudo dessas áreas, ou seja, as ciências sociais. Este é um tópico sensível já que, como parece ser ponto assente, muitas das desgraças associadas às utopias devem-se à sua apresentação enquanto verdades científicas. Mas julgo que esta ligação a existir acontece essencialmente num sentido: o do estudo científico da influência e da presença do pensamento utópico na nossa história e na nossa sociedade, ou o estudo das suas possíveis origens, causas e efeitos; e não o inverso, ou seja, enquanto motivação para iniciar ou moldar um projecto científico de acordo com um ideal utópico descurando a realidade dos factos. Seja como for, nem as ciências sociais nem as utopias são um projecto reformista, nem as primeiras têm que ser meramente um olhar distanciado da realidade social (desprezando o seu possível impacto no meio estudado), ou as segundas um simples devaneio imaginativo. Ambas têm repercussões consideráveis no mundo em que existem, quanto mais não seja porque ambas reflectem precisamente sobre a condição e comportamento do homem integrado nas sociedades e culturas em que se desenvolve. Além disso, ambas têm uma boa dose de imaginação e de base empírica nas suas concepções. Parece-me, por tudo isto, que cientificamente a influência pode ser recíproca: a ciência social enquanto uma forma de abordar criticamente o pensamento utópico e a sua influência na vida quotidiana e na história do homem, desconstruindo os seus mitos e racionalizando as suas propostas; a utopia enquanto uma forma de imaginação que questiona igualmente algumas assunções básicas de muitos projectos científicos, ponderando a existência de novas possibilidades e lembrando-nos constantemente de quão pouco sabemos sobre o homem, tanto no plano biológico como no plano social, evitando, ao mesmo tempo, que o nosso olhar tenda a ficar debilitado por possíveis concepções totalitárias de pensamento.
De todas as ciências sociais, há uma que ao longo deste texto pareceu destacar-se particularmente: falo da antropologia social. A ligação mais óbvia a apontar é a da relação com outras sociedades distintas da nossa: enquanto a antropologia as estuda, a utopia concebe-as com recurso à imaginação. Nesta matéria, a influência dos estudos antropológicos no pensamento utópico é real, tendo despertado a imaginação de muita gente através dos resultados que produziu, originando até alguns mitos, não de forma premeditada mas através de interpretações erróneas ou usurpações dos dados apresentados. Reconhecendo esta influência na produção do discurso utópico, que tende a mitificar e a atribuir uma roupagem idílica a alguns dados antropológicos – por exemplo, na relação de algumas sociedades estudadas com a natureza ou na harmonia que se lhes associa –, a antropologia social tem também outro papel muito importante na sua conexão com este campo da criatividade humana. Por razões históricas, é uma capacidade que pode muito bem ser a mais importante para a afirmação do pensamento utópico de acordo com seu valor próprio: a capacidade de nos impedir de considerar os ideais utópicos como verdades científicas, desmistificando algumas das suas formulações sobre a nossa natureza e sobre o nosso comportamento. Mas neste caso é importante sublinhar que a antropologia, enquanto ciência essencialmente empírica que é, também tem a ganhar com o pensamento utópico se assumirmos que nem tudo o que é possível tem que ter uma existência empírica comprovada.
A relação da antropologia com os dois elementos que apontamos estar na origem do discurso utópico também é bastante significativa. Para além da ligação que ambas têm com a diferença, um problema que está na origem do estabelecimento destas duas formas de pensamento e que foi motivado, em grande medida, pela descoberta do novo mundo, a antropologia também não existe sem um certo descontentamento. Apesar de se associar a antropologia ao estudo de outras sociedades exteriores à nossa, a capacidade que a antropologia tem de nos fazer reflectir sobre a nossa própria sociedade levou a que Claude Lévi-Strauss afirmasse que ninguém a escolhe como profissão se não estiver minimamente descontente com o mundo em que vive e não tiver o desejo de encontrar possíveis alternativas. É uma ideia que me parece ser acertada, embora não deva ser tomada acriticamente, até porque eventualmente nem todos os antropólogos pensarão da mesma forma.
Por último, a antropologia tem uma característica que a distingue das outras ciências sociais, em especial da sociologia, da economia e da psicologia, ao providenciar uma perspectiva holista sobre as sociedades que aborda. Apesar de ser associada ao estudo do outro e a sociedades extrínsecas à nossa, tem também muito a dizer sobre aquela em que vivemos e é nesse sentido que pode ajudar-nos a compreender melhor a presença e o desenvolvimento do pensamento utópico. Enquanto as ciências sociais referidas abordam a sociedade de um modo fragmentado, isolando as relações sociais do contexto económico, político e ideológico, a antropologia integra-as num todo, lançando-lhes um olhar exterior que visa facilitar a sua compreensão e fugir ao etnocentrismo que implica partir do princípio que podemos questionar as motivações de indivíduos em planos culturais distintos do nosso. Também neste caso, o pensamento utópico parece partilhar com a antropologia, em alguns casos, a forma de integrar o indivíduo na sociedade, ao apresentá-lo regularmente como integrado, limitado e profundamente influenciado pelo contexto económico, social e político em que está inserido, e não como um elemento isolado desse meio.
Basicamente, tal como o pensamento utópico desafia as nossas próprias categorias, a nossa moral e influencia a nossa vivência quotidiana, e tal como influenciou muitos acontecimentos históricos, a antropologia representa um desafio semelhante, intensificado pela sua dimensão empírica no lugar do recurso à imaginação. Podemos assim considerar que enquanto o pensamento utópico constitui um género de possibilidades, a antropologia é uma ciência das possibilidades.
A ligação entre ciência e utopia não acarreta qualquer risco se partirmos do princípio de que nem a utopia se deve tentar afirmar como uma verdade científica, nem a ciência se deve assumir, sem mais nem menos, como o farol do progresso humano e das suas possibilidades. Tanto a imaginação como a razão parecem ter qualquer coisa a dizer.
Já afirmei que o pensamento utópico existe muito para lá do género literário ou artístico. Não é apenas influenciado e despoletado pelo mundo em que vive, mas faz inclusive parte do seu quotidiano nas mais diversas formas. Se olharmos para o dia-a-dia das nossas sociedades podemos encontrar múltiplos exemplos dessa presença, como por exemplo, na religião, na política, na moral ou na cultura popular. O nosso pensamento e as nossas causas continuam preenchidos de utopias. Não há aqui espaço para desenvolver este tópico complexo com profundidade e apenas me proponho a dar alguns exemplos, de forma algo superficial, com o único intuito de mostrar que o utopismo tem uma forte presença no nosso dia-a-dia. Nas quatro áreas que referi, apresento um ou dois exemplos actuais para cada uma e procuro explorar em seguida, de forma sucinta, duas dessas áreas (uma outra exploro na última parte do texto).
A religião fornece-nos inúmeros exemplos de ideais utópicos, mas aqueles que mais se destacam para nós ocidentais são, certamente, a ideia do Paraíso e do Inferno – neste caso um exemplo que poderemos chamar distópico, já que recai no campo do indesejado. Não porque estes locais representem sociedades perfeitas ou imperfeitas, mas porque representam um ideal de harmonia e de paz nas relações humanas ou, por outro lado, de violência e sofrimento eterno no caso do Inferno. Além disso, o paraíso é muito provavelmente a utopia que durante mais séculos contagiou uma franja imensa da humanidade. Junta-se-lhe também a particularidade de nos poder dizer qualquer coisa sobre a esperança humana na mudança, ao projectar para lá da própria vida e da terra a possibilidade de alcançar uma sociedade ideal. Na realidade, não deixa de ser curioso que a influência da cosmologia católica comece a esboroar-se com o aparecimento de certas formas de pensamento e, porque não, ao mesmo tempo que o desenvolvimento do pensamento utópico.
Na política os exemplos são, igualmente, inúmeros: temos, por exemplo, aquele ideal que predomina hoje em dia e que molda em grande medida a nossa moral e os nossos comportamentos – o capitalismo – e temos outro que sob múltiplas formas surgiu ao longo da história em sua oposição – o socialismo. Já na moral, limitemo-nos a apontar que existe uma miríade de questões que podemos congregar numa expressão corrente, a de Direitos Humanos – uma utopia em certo sentido diferente das outras. Na cultura popular, existe, por exemplo, o carnaval, embora a expressão utópica no seu imaginário tenha sido mais forte no passado. Posso começar precisamente pelo carnaval e pela cultura popular para passar em seguida à questão dos Direitos Humanos.
Uma boa referência para esta abordagem é o livro Rabelais and His World, do filósofo russo Mikhail Bakhtin, dedicado à obra do escritor renascentista francês, François Rabelais, e é nele que vou pegar. Neste, Bakhtin mostra-nos muito claramente como, no geral, os ritos e espectáculos organizados à maneira cómica, em especial o carnaval, assumiam no seu decorrer uma forma em tudo distinta das formas de culto e das cerimónias oficiais da igreja ou do estado feudal, propondo mesmo uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente da oficial. Contrariamente às festas oficiais em que os rituais consagravam as desigualdades, no carnaval aboliam-se as relações hierárquicas reinando uma espécie de “contacto livre”, ou seja, uma igualdade no contacto entre as pessoas impossível noutras circunstâncias pela existência de diferenças de diversa ordem, nomeadamente sociais, etárias ou económicas. Bakhtin fala mesmo na criação de uma dualidade do mundo afirmando que tais eventos “pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas”. É por esta razão que não parece ser exagero incluir uma tradição popular, celebrada sazonalmente, num tópico com o nome de “utopias quotidianas”. Na realidade, estas festas ocorriam geralmente mais do que uma vez por ano e chegavam mesmo a durar meses.
A ideia de dualidade do mundo também nos permite lançar uma luz sobre algumas das perguntas que levantei anteriormente sobre a relação da utopia com a moral. O que vemos, neste caso, não é definitivamente uma destruição da moral mas antes uma redefinição dos seus princípios; uma nova proposta moral materializada através da reprodução da sociedade idealizada na prática carnavalesca.
A perspectiva defendida neste texto assemelha-se muito à que é defendida pelo filósofo russo no seu livro relativamente à época a que se refere, ao defender que sem levar em consideração esta vivência utópica, esta dualidade do mundo, “não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média nem a civilização renascentista”. Além disso, o carnaval tem uma proximidade significativa do pensamento utópico ao partilhar algumas das suas características, nomeadamente, e para usar mais uma vez as palavras de Bakhtin, a de “se situar nas fronteiras entre a arte e a vida”.
Saltemos agora para a presença utópica na nossa própria moral, mais concretamente para a ideia dos Direitos Humanos. Esta é uma questão que ganhou especial relevância com a descoberta do novo mundo, inquietada que foi a nossa concepção da unidade da espécie humana. É este um dos “problemas” que nos permite olhar os direitos humanos como uma forma de utopia nos nossos dias. Classificá-la dessa forma não implica que seja algo impossível de alcançar: apenas que deve continuar no nosso horizonte para que continuemos a caminhar na sua direcção. Há que reiterar que a utopia não é uma ilusão por não a termos concretizado; é antes aquilo que ainda não existe e que, embora nos tendamos a aproximar, há de nos continuar a fugir prolongando a nossa perseguição. O escritor sul-americano Eduardo Galeano afirmou uma vez que "a utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Então para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Esta frase contorna precisamente o fracasso causado por olharmos as utopias como impossíveis e como uma forma de pensamento ingénuo. Além disso, alerta-nos para outro factor importante que nos impede de sobrestimá-las, de as tomar dogmaticamente ou de as apresentar como verdades científicas: se as utopias servem para nos fazer caminhar, guiando-nos em direcção a um horizonte fugidio, uma das conclusões que devemos tirar é a de que não existem sociedades perfeitas, nem mesmo nas utopias.
Os direitos humanos são uma representação muito fiel da importância das utopias na formulação do nosso pensamento e da nossa conduta diária. Representam um ponto basilar da nossa consciência moral e política e é um dos temas mais discutidos, mais polémicos e na origem de mais lutas nos dias que correm. No entanto, apesar de terem ganho esta centralidade com o pensamento iluminista, a sua história é muito mais longa. É um exemplo perfeito desse horizonte fugidio, alcançado sob a forma de vitórias graduais que nos parecem fazer aproximar cada vez mais desse ideal desejado, por muito que o horizonte se estenda novamente e insista mais uma vez em fugir. Não será difícil acreditar que para um escravo negro no século XVII fosse bastante díficil conceber a possibilidade de algum dia a escravatura acabar (provavelmente esta era uma questão que nem colocava). Mesmo no Ocidente, há não muito mais do que um século atrás ainda era corrente em muitos meios a ideia de que jamais seria possível vir a atribuir o direito de voto às mulheres ou acabar com o uso de mão-de-obra escrava. Infelizmente, as vitórias alcançadas nestes casos são, muitas vezes, apenas parciais, como por exemplo no que toca à escravatura, que insiste em renovar-se e que permanece viva, principalmente no chamado terceiro mundo, muito à custa das necessidades dos chamados países desenvolvidos, embora também não esteja extinta do nosso. No entanto, o que interessa sublinhar é aquele que constitui um facto óbvio: mesmo que a situação actual não seja a ideal em termos de direitos humanos, uma sucessão de progressos notáveis ao longo da nossa história permite-nos hoje dar por garantidos alguns direitos inimagináveis há poucos séculos atrás ou mesmo décadas. E isso só foi possível porque tais possibilidades permaneceram no horizonte, atraindo-nos constantemente na sua direcção.
Utopia e ciências sociais
Reconhecer esta presença da utopia na nossa história ou na vida quotidiana leva-nos à reflexão da sua relação com o campo científico que se dedica ao estudo dessas áreas, ou seja, as ciências sociais. Este é um tópico sensível já que, como parece ser ponto assente, muitas das desgraças associadas às utopias devem-se à sua apresentação enquanto verdades científicas. Mas julgo que esta ligação a existir acontece essencialmente num sentido: o do estudo científico da influência e da presença do pensamento utópico na nossa história e na nossa sociedade, ou o estudo das suas possíveis origens, causas e efeitos; e não o inverso, ou seja, enquanto motivação para iniciar ou moldar um projecto científico de acordo com um ideal utópico descurando a realidade dos factos. Seja como for, nem as ciências sociais nem as utopias são um projecto reformista, nem as primeiras têm que ser meramente um olhar distanciado da realidade social (desprezando o seu possível impacto no meio estudado), ou as segundas um simples devaneio imaginativo. Ambas têm repercussões consideráveis no mundo em que existem, quanto mais não seja porque ambas reflectem precisamente sobre a condição e comportamento do homem integrado nas sociedades e culturas em que se desenvolve. Além disso, ambas têm uma boa dose de imaginação e de base empírica nas suas concepções. Parece-me, por tudo isto, que cientificamente a influência pode ser recíproca: a ciência social enquanto uma forma de abordar criticamente o pensamento utópico e a sua influência na vida quotidiana e na história do homem, desconstruindo os seus mitos e racionalizando as suas propostas; a utopia enquanto uma forma de imaginação que questiona igualmente algumas assunções básicas de muitos projectos científicos, ponderando a existência de novas possibilidades e lembrando-nos constantemente de quão pouco sabemos sobre o homem, tanto no plano biológico como no plano social, evitando, ao mesmo tempo, que o nosso olhar tenda a ficar debilitado por possíveis concepções totalitárias de pensamento.
De todas as ciências sociais, há uma que ao longo deste texto pareceu destacar-se particularmente: falo da antropologia social. A ligação mais óbvia a apontar é a da relação com outras sociedades distintas da nossa: enquanto a antropologia as estuda, a utopia concebe-as com recurso à imaginação. Nesta matéria, a influência dos estudos antropológicos no pensamento utópico é real, tendo despertado a imaginação de muita gente através dos resultados que produziu, originando até alguns mitos, não de forma premeditada mas através de interpretações erróneas ou usurpações dos dados apresentados. Reconhecendo esta influência na produção do discurso utópico, que tende a mitificar e a atribuir uma roupagem idílica a alguns dados antropológicos – por exemplo, na relação de algumas sociedades estudadas com a natureza ou na harmonia que se lhes associa –, a antropologia social tem também outro papel muito importante na sua conexão com este campo da criatividade humana. Por razões históricas, é uma capacidade que pode muito bem ser a mais importante para a afirmação do pensamento utópico de acordo com seu valor próprio: a capacidade de nos impedir de considerar os ideais utópicos como verdades científicas, desmistificando algumas das suas formulações sobre a nossa natureza e sobre o nosso comportamento. Mas neste caso é importante sublinhar que a antropologia, enquanto ciência essencialmente empírica que é, também tem a ganhar com o pensamento utópico se assumirmos que nem tudo o que é possível tem que ter uma existência empírica comprovada.
A relação da antropologia com os dois elementos que apontamos estar na origem do discurso utópico também é bastante significativa. Para além da ligação que ambas têm com a diferença, um problema que está na origem do estabelecimento destas duas formas de pensamento e que foi motivado, em grande medida, pela descoberta do novo mundo, a antropologia também não existe sem um certo descontentamento. Apesar de se associar a antropologia ao estudo de outras sociedades exteriores à nossa, a capacidade que a antropologia tem de nos fazer reflectir sobre a nossa própria sociedade levou a que Claude Lévi-Strauss afirmasse que ninguém a escolhe como profissão se não estiver minimamente descontente com o mundo em que vive e não tiver o desejo de encontrar possíveis alternativas. É uma ideia que me parece ser acertada, embora não deva ser tomada acriticamente, até porque eventualmente nem todos os antropólogos pensarão da mesma forma.
Por último, a antropologia tem uma característica que a distingue das outras ciências sociais, em especial da sociologia, da economia e da psicologia, ao providenciar uma perspectiva holista sobre as sociedades que aborda. Apesar de ser associada ao estudo do outro e a sociedades extrínsecas à nossa, tem também muito a dizer sobre aquela em que vivemos e é nesse sentido que pode ajudar-nos a compreender melhor a presença e o desenvolvimento do pensamento utópico. Enquanto as ciências sociais referidas abordam a sociedade de um modo fragmentado, isolando as relações sociais do contexto económico, político e ideológico, a antropologia integra-as num todo, lançando-lhes um olhar exterior que visa facilitar a sua compreensão e fugir ao etnocentrismo que implica partir do princípio que podemos questionar as motivações de indivíduos em planos culturais distintos do nosso. Também neste caso, o pensamento utópico parece partilhar com a antropologia, em alguns casos, a forma de integrar o indivíduo na sociedade, ao apresentá-lo regularmente como integrado, limitado e profundamente influenciado pelo contexto económico, social e político em que está inserido, e não como um elemento isolado desse meio.
Basicamente, tal como o pensamento utópico desafia as nossas próprias categorias, a nossa moral e influencia a nossa vivência quotidiana, e tal como influenciou muitos acontecimentos históricos, a antropologia representa um desafio semelhante, intensificado pela sua dimensão empírica no lugar do recurso à imaginação. Podemos assim considerar que enquanto o pensamento utópico constitui um género de possibilidades, a antropologia é uma ciência das possibilidades.
A ligação entre ciência e utopia não acarreta qualquer risco se partirmos do princípio de que nem a utopia se deve tentar afirmar como uma verdade científica, nem a ciência se deve assumir, sem mais nem menos, como o farol do progresso humano e das suas possibilidades. Tanto a imaginação como a razão parecem ter qualquer coisa a dizer.
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