Parece Mesmo o Paraíso, John Cheever
Nos últimos tempos, temos sido presenteados com a chegada às livrarias de edições portuguesas do americano John Cheever. Tanto a Sextante (que editou Falconer em 2007 e, mais recentemente, Contos Completos I) como a Relógio d’Água, têm-nos oferecido a possibilidade de ler em português este «Tchékov dos subúrbios», como é conhecido John Cheever.
Escrito em 1982, ano da sua morte, Cheever junta nesta última obra detalhes da natureza humana, ternos e cruéis, de modo a criar uma narrativa que se interrompe a espaços, alternando personagens e situações, confluindo todas na mesma direcção sem que se dê por isso. Somos, enquanto leitores, apanhados tão desprevenidos quanto as personagens.
Ao longo de Parece Mesmo o Paraíso paira o desejo de um regresso ao estado mais puro e genuíno do Homem. Lemuel Sears, «um homem suficientemente velho para recordar o tempo em que os horizontes da sua terra eram dominados pelos esplêndidos ulmeiros», é a personagem que, estando presente em toda a obra, parece atravessar as histórias que lhe são paralelas, como se patinasse num lago. Sears descobre, ao patinar no gelo, «a profundeza de uma experiência ancestral» e, como se se tratasse de um subtil acaso, vai encontrando as pessoas certas para a salvação deste lago.
«Mas na época sobre a qual escrevo» introduz muitos momentos nas histórias de Parece Mesmo o Paraíso, dando-lhe a marca da sua contemporaneidade: interesses políticos que resultam em assassínios misteriosos; o aparecimento de grupos de auto-ajuda; ou questões freudianas que se tratam em psiquiatras.
John Cheever tem na sua escrita o desalento que transporta o tédio da classe média, no vazio a que a vida pode convidar, preenchido por vezes com pequenos nadas quotidianos, como é um dia de sol na praia, uma canção que se reconhece no supermercado, ou uma agradável tarde de pesca.
Infelizmente, alguns atropelos na leitura são causados por uma revisão ortográfica deficiente tais como falta de hífens, letras soltas ou ausência de acentos.
«Não se desliga o vento», diz Mary ao justificar um espanta-espíritos que se limita a cumprir a sua função, e é assim que se sente este Parece Mesmo o Paraíso – uma brisa que sopra sem cessar num espanta-espíritos, desviado num momento ou outro por uma aragem mais forte, mas balouçando sempre na mesma direcção.
por Rita Lavos
Parece Mesmo o Paraíso
John Cheever
Relógio d’Água
2009










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