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A América, Paulo José Miranda

7 August 2009 0 Comentários

américaPaulo José Miranda (n. 1965) não é um nome que se possa considerar marginal na literatura portuguesa actual. Entre os prémios que o poderiam tornar um nome reconhecido está o Prémio José Saramago, do qual ele foi o primeiro vencedor mesmo no final do século XX (1999). Mas não é aqui, nem agora, que vou tentar desvendar o porquê deste mistério. Este é o momento para tratar o mais recente livro de Paulo José Miranda, A América. Duas mudanças sobressaem, uma antes sequer de abrir o livro: A América não é editado pela Livros Cotovia. Inaugura a “série textos breves” da Quetzal, onde, até à data, foram publicados Amor e Ódio de Filipe Nunes Vicente, A Infância É Um Território Desconhecido de Helena Vasconcelos, Pastoral Portuguesa de Rogério Casanova, Teoria da Viagem de Michel Onfray e o mais recente Os Meus Prémios de Thomas Bernhard. A outra mudança acontece na sua leitura: o estilo adoptado por Paulo José Miranda: o aforismo; pois até agora a sua obra baseava-se em Teatro (O corpo de Helena), Poesia (A Voz Que Nos Trai, A Arma do Rosto, O Tabaco de Deus) e Ficção (Um Prego No Coração, Natureza Morta, Vício, O Mal). Esta América é composta por 99 aforismos (e, de sobreaviso, nada é ao acaso na escrita de Paulo José Miranda, muito menos a escolha deste número).

Por vezes, parece que Paulo José Miranda faz ontologia utilizando A América como a grande metáfora do ser (aforismo 34: «A meio caminho entre o fracasso e a genialidade está a América»). E também da relação do ser com o mundo ou do ser-no-mundo (in-der-Welt-sein) (aforismo 6: «Não faz sentido dizer, a não ser em linguagem medieval, que a América quer mandar no mundo. Não faz sentido, porque a América é o mundo. É o mundo não porque o tenha conquistado, mas porque o mundo vive da, para e contra a América. O termo novo mundo também já não faz sentido.»). Nem todos conhecem os Estados Unidos da América, mas todos nós, bem ou mal, conhecemos A América.

A concepção da imagem da América, ou de nós próprios, é colhida muito graças a Hollywood e aos seus frutos (filmes, milhares de filmes), da música (bandas e os mitos à volta delas), da história que nunca vai acompanhar a verdade – pois nós somos a bala mágica que matou JFK (somos também a sua teoria e somos JFK, e, não esquecer, que continuamos a ser A América). Mas vou deixar o livro falar:

«Os westerns filmados em Hollywood fizeram mais pelo entendimento da Bíblia do que o Vaticano. A América faz mais pelo entendimento do judaísmo do que Israel. A América faz tanto pelo entendimento quanto fez a Alemanha.» (Aforismo 36)

«Sempre que se ouvir uma guitarra eléctrica ouve-se a América, sempre que se ouvir uma bateria ouve-se a América, sempre que se ouvir um trompete ouve-se a América, Sempre que se ouvir um saxofone ouve-se a América, sempre que se ouvir uma rua suja de miúdos transformar-se em belo ouve-se a América.» (Aforismo 90)

«A América conduziu o entretenimento a um estado tal de desenvolvimento que ele se transformou em outra coisa. Na verdade, pode mesmo dizer-se que a América criou o entretenimento. O entretenimento não é uma indústria, é uma forma de pensar. Fora do entretenimento não se pensa o mundo, age-se contra ele.» (Aforismo 22)

Um livro de aforismos escrito no séc. XXI é um livro de aforismos escrito no séc. XXI: uma raridade.

por Paulo Serra

A América
Paulo José Miranda
Quetzal
2008

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