A mulher que prendeu a chuva, Teolinda Gersão
A última publicação de Teolinda Gersão, editada pela Sudoeste Editora em Março de 2007, é um verdadeiro enriquecimento para a literatura portuguesa de contos.
Utilizando um poderoso relato actual, expõe uma condição humana fortemente marcada pelo urbano e como a urbe tem o poder de condicionar o ser humano. Não apenas de o ser humano, mas também de despertar nele as características mais absurdas e terríveis.
Durante quatorze pequenas histórias que começam como simples relatos do quotidiano, magoa-nos com a insensível abertura escancarada de portas que conduzem a mundos oníricos, pavorosos e algo nauseantes. Mundos que existem dentro de todos nós e que nem sempre gostamos de acreditar ou de assumir.
No conto “O cão”, a degradação de uma relação leva um homem a desejar a morte da própria mulher com quem escolheu passar a vida inteira. Conhecer alguém implica indissociavelmente conhecer as suas fraquezas de uma forma íntima. Essas fraquezas são uma sedução à inata tendência humana de manipular o outro, como uma auto-defesa, como uma masturbação intelectual do desejo irracional de poder. Mas o controlo do outro pode ter consequências catastróficas, principalmente para o controlador. É o que acontece neste conto: a mulher, utilizando a sua doença, a sua fraqueza, como fortíssima forma de controlo sobre o homem, tratando-o como se ele fosse o seu cão, encontra a morte pelas mãos que deveriam ser a sua maior fonte de segurança. Mas a fraqueza humana e a sua tomada de consciência também implicam um reconhecimento da sua terrível impotência. A impotência de fugir à Morte que marca a sua hora é a fonte da angústia existencial que encontramos em “Se por acaso ouvires esta mensagem” ou “Cavalos nocturnos”. E se a certeza da Morte torna a vida um absurdo irresolúvel, inesgotável sensação de agonia no Homem, inocente animal encurralado, a incerteza de uma vida da qual desapareceu toda a substância não é menos infértil fonte de paradoxo, como encontramos n’ “As tardes de um viúvo aposentado” ou na “Conversa” da prima Conceição e da prima Tecla.
Colocando as suas personagens à boca de cena, Teolinda permite que o leitor experiencie directamente a história através das palavras, pensamentos ou acções das personagens. Apagando o mais possível a voz do narrador, numa premeditada perversidade intelectual que merece respeito, é o leitor que é chamado ao lugar de juiz para julgar a sua personagem. Estamos na mágica floresta africana com o homem que no seu quarto de hotel ouve a fantástica história d’ “A mulher que prendeu a chuva”, metamorfoseamo-nos com a “pequena empregada bancária” que vende a sua alma por “Um casaco de raposa vermelha”, odiamos de dor a vileza da mãe em “A ponte na Califórnia”.
Mil podem ser as interpretações e, assim, mil podem ser as sentenças. Este show, don’t tell praticado pela tão nossa Teolinda Gersão, dá uma perturbante vida às personagens. Percepcionamos as suas vidas e as suas dores com os nossos cinco sentidos, sentimos a sua angústia existencial com a nossa inteligência, sofremos a sua inevitável degradação humana e espiritual com o nosso sentimento.
Este livro de contos merece ser lido, mas é necessário que não seja lido de uma forma inocente: o seu conteúdo apela à atenção e capacidade de honestidade do leitor. O fascínio que certas histórias podem provocar sobre o desatento leitor é capaz de gerar perseguidoras manchas impressionistas na mente dos mais sensíveis.
Por Dora Guedes
A mulher que prendeu a chuva
Teolinda Gersão
Sudoeste Editora
2007










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