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Sete Partidas, Manuel Alegre

15 August 2008 2 Comentários

Sete PartidasHoje em dia, pelo percurso de vida sobejamente conhecido do autor, pelos diversos episódios da sua vida pública recente, é impossível dissociar a leitura da sua obra desses acontecimentos. Mesmo que o não queiramos, tudo isso é chamado à colação no momento de absorver a leitura dos seus versos, algo a que, suspeito, o autor não é adverso.

O olhar menos atento dirá que este pequeno livro das edições Nelson de Matos (de parabéns pela edição – cuidada, sóbria e leve) fala da oficina do poema. É um engano: este poema fala de algo mais subtil mas claramente representado ou seja, da fermentação do poema, sobre o momento anterior, aquele em que se colocam as questões (ou não). Daí que Alegre comece muitas das secções (e são doze no total) com as palavras “Pode escrever-se um poema”, porque é da possibilidade que primeiro se trata e interpela. Essa possibilidade que fertilizada no seu encontro com uma determinada personagem histórica (D. Pedro da ínclita geração) e com alguns dos seus momentos (Penacova, Bruges, e outros), é o que virá a dar a cor do poema no tempo presente, quando a ele o poeta finalmente chegar. Para Manuel Alegre é sempre importante achar o poema.

Sete são as partidas do mundo, as referidas a propósito de D. Pedro de Alfarrobeira, o que consta da epígrafe ao poema na pena do delicadamente referido Appolinaire. Mas são 12 as secções do poema, acanhando-se de uma 13ª que seria demasiado aziaga e sem esperança…embora notemos com curiosidade que poderia ter ficado o poema com 11 que ficaria muito bem (e mais uma vez, também aqui a vida do poeta se intromete, pois buscar a metáfora futebolistica seria quase inevitável).

Iremos por tanto fazer uma viagem, uma que é importante para perceber o mundo e saber como governá-lo. Tal como D. Pedro. Que o façamos às mãos sábias de Alegre, é um privilégio – mesmo para quem não o aprecie – vantagem clara do escritor que é verdadeiro na alma do seu ofício, nessa coisa literária que é o achar da pergunta e o achar da resposta. E iremos também com D. Pedro, a relevância alegórica estabelecida e oportuna, por exemplo no verso final da 5ª Secção/Poema: Vou com D. Pedro pelos campos da memória.

O que questiona este discurso poético? A pergunta é sobre o país, sobre a oportunidade da poesia perante o que ele é, o que pode ser e sobretudo o que queremos que seja. É um suave questionar sobre o exercício do Poder no que é de todos nós.

A resposta é – será – importante, e consta como bom e preparado clímax narrativo, no 10º poema ou secção, que me absterei de transcrever, pois um clímax verdadeiro é pessoal e intransmissível, somente conseguido entre as duas almas, a do leitor e a da palavra escrita.

Depois vem o constatar de que a resposta veio, vai-se, e o que fica, fica connosco: a efemeridade, o tinir do cristal e uma final palavra, a que é a chave do poeta: a palavra Pergunta.

Este Sete Partidas é um regresso antecipado e muito esperado de Manuel Alegre à primeira linha da frente poética (se bem que é discutível que o autor de lá alguma vez tenha saído). Por isso, pela beleza e sonoridade imprescindíveis e hoje tão raras, este é um livro recomendadíssimo.

por N. Fonseca

2 Comentários »

  • Claudia Sousa Dias said:

    Ainda não li nada dele…falha grave…

    CSD

  • Pedro said:

    Já li umas coisas dele… falha gravíssima.

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