Duluoz, o Vaidoso, Jack Kerouac
Há autores que exigem ser lidos numa altura específica. Se não o fizermos, corremos o risco de nunca os compreender na totalidade. Por exemplo, é complicado, para quem não leu os livros em criança, perceber o porquê do fascínio e carisma de Lewis Carroll ou de Edward Lear. Jack Kerouac é outro caso. São poucos os que, aos quarenta anos, lêem o On the Road com o mesmo entusiasmo que o leriam aos vinte.
Jack Kerouac nasceu em Lowell, no Massachussets, em 1922. Enérgico, com uma curiosidade incessante, cedo se dedicou às leituras, à escrita e ao futebol americano. Aliás, foi graças a este que conseguiu uma bolsa de estudo para a Universidade de Columbia – uma das mais conceituadas nos EUA – onde veio a conhecer um grupo de intelectuais (Allen Ginsberg, William Burroughs ou Lucien Carr) e um grupo de drogados, prostitutas e vagabundos (Herbert Huncke ou, o mito beat por excelência, Neal Cassady), que formariam o núcleo do que se chamou Beat Generation – um termo cunhado por Kerouac. Viajou na marinha mercante em plena Segunda Guerra Mundial, percorreu a América de uma ponta a outra, em busca de mulheres, drogas ou uma “nova visão” – estas viagens viriam a ser documentadas no épico On the Road – e tornou-se um símbolo e um herói da cultura dos anos 1960. Na última fase da vida, viveu “agarrado às saias da mãe” (como disse Burroughs), acabando por falecer na Florida, em 1969, vítima de uma cirrose.
Na minha opinião, pode dividir-se a obra de Kerouac em quatro fases. Uma primeira fortemente influenciada por Thomas Wolfe e Jack London, onde o autor procura o seu próprio estilo, ainda incerto. Nesta fase, encontramos livros como o delicioso The Town and the City, uma peça de teatro (ainda à espera de publicação) e vários poemas. Depois, Kerouac alcança o estilo frenético e vertiginoso que lhe deu fama, com um deslumbramento contínuo e uma curiosidade extrema. On the Road e The Dharma Bums são livros que se encaixam que nem uma luva nesta fase (estão ambos traduzidos pela Relógio d’Água). Mais tarde, desiludido com o sucesso, com o materialismo crescente da sociedade norte-americana e com o alheamento da juventude, desenvolve uma nova fase, da qual o soturno Big Sur (também traduzido pela Relógio d’Água) é o melhor exemplo. No final da vida, Kerouac começou a criar um novo estilo, mais melancólico e pausado. Duluoz, o Vaidoso é o expoente dessa fase.
Todas as obras do autor são largamente auto-biográficas e esta não é excepção. Publicado um ano antes da morte de Kerouac, o livro assume a forma de uma longa carta a Stella Sampas – à época, a sua mulher – e conta a sua história desde 1935, quando era um jovem jogador de futebol americano no liceu, até 1946, ano em que cimentava as suas relações com o que viria a ser a Beat Generation. Pelo caminho descreve a sua vida em Nova Iorque, as suas experiências em alto mar durante a Segunda Grande Guerra e o famoso assassínio que Lucien Carr (Claude de Maubris, no livro) perpetrou contra David Kammerer – um homossexual obcecado pelo jovem estudante de antropologia – onde Kerouac se viu envolvido como cúmplice, por ter ajudado Carr a “desfazer-se” das provas do crime. A história termina com o casamento do autor com uma amiga, para se livrar da prisão.
Como diz Paulo Faria – que, já agora, fez uma tradução excelente – no prefácio, Jack Kerouac é um grande contador de histórias – aquele bêbado que está sentado junto ao bar, pronto a entreter noite fora quem tiver paciência. E é por essa capacidade única que qualquer livro seu vale a pena. Em Duluoz, o Vaidoso as descrições das viagens, num mar pejado de submarinos e navios de guerra, lêem-se de um fôlego e transportam-nos para a infância, quando seguíamos com prazer histórias de piratas ou de viagens assombrosas. É uma Ilha do Tesouro ou um Salgari para leitores mais velhos, que não perderam ainda o fascínio pela aventura; o mesmo magnetismo de On the Road, mas aqui contado mais lentamente e num tom algo absorto.
Tal como foi dito, o livro é melancólico e apresenta-nos um Kerouac nostálgico, que analisa cirurgicamente o seu passado. Conclui que fez aquilo a que se propôs: “escrevi o livro, deambulei pelas ruas da vida, de Manhattan, de Long Island, deambulei ao longo das 1183 páginas do meu primeiro romance, vendi o livro, obtive um adiantamento (…), fiz tudo o que devemos fazer na vida.” Mas remata depois que, “não deu em nada. Nenhuma «geração» é «nova». Não há «nada de novo debaixo do sol».” Terminando com uma citação do Eclesiastes (Kerouac era um misto de católico com budista): “Tudo é vaidade.”
Ao contrário do que o autor afirma no fim do livro, não foi a vaidade que o perdeu. Kerouac começou por ser ingénuo e deslumbrado por tudo até à medula. Mas ao contrário do deslumbramento, a ingenuidade não se perdeu e o escritor nunca compreendeu totalmente como acabou por cair toda a sua visão mística da vida e do mundo, que procurou construir durante boa parte da sua vida e obra. Duluoz, o Vaidoso é, acima de tudo, um espelho dessa ingenuidade e dessa incompreensão. Pode não ser um livro tão denso e soturno como Big Sur, mas é o testemunho de um homem que, outrora frenético e entusiasmado, percebe que falhou, que não chegou a nada e que, no fundo, debaixo do Sol, “tudo é vaidade”. Longe de mim querer entrar em conflito com o autor mas, com Jack Kerouac, as coisas não foram bem assim.
por João Pedro Ferrão









Gostei muito do texto…lerei o livro q seu tempo…
CSd
to lendo ON THE ROAD, to curtindo. todos que leram me disseram que é como uma bíblia.
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