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Björk vs. Sylvia Plath

21 September 2009 1 Comentário

plathbjorkÉ difícil assinalar uma poetisa da atualidade que não tenha entrado em contato com a força magnética de Sylvia Plath em Ariel (1965), e que tenha passado ilesa desse contato, sem levar consigo qualquer influência.

O caráter literário das letras de Björk Gudmundsdóttir, desde que começou sua carreira solo internacional, tem suscitado questionamentos sobre suas leituras. Embora já tenha colocado trabalhos de E. E. Cummings em suas canções e citado William Burroughs em uma entrevista, seria necessária uma entrevista mais incisiva para saber exatamente e como ela é influenciada pela escrita. E mesmo que Björk nunca tenha lido Sylvia Plath, o objetivo deste breve artigo é mostrar como Ariel criou uma estética e uma proposta na poesia que até hoje é um conceito ressonante e tende a caracterizar no futuro possivelmente até uma escola a que estamos vivendo.

O quarto álbum da carreira solo de Björk, Vespertine, traz um ápice em sua produção musical e por isso foi escolhido para fazer um paralelo com o ápice de Sylvia Plath em Ariel, porque o ser de quem se fala em primeira pessoa também está envolvido em uma extenuante batalha emocional, tocando a auto-destruição.

O caráter decifratório das letras de um e dos poemas do outro, aliado à escolha de palavras (dicção), e em alguns momentos até na estrutura das estrofes, são muito próximos. Mesmo que em temas diferentes. Uso-me dos seguintes exemplos: o poema-título do livro de Sylvia e a mais impactante canção do álbum de Björk.

“Ariel” de Sylvia Plath

Estase no escuro.
E um fluir azul sem substância
De rochedos e distâncias.

Leoa de Deus,
Como nos unimos,
Eixo de calcanhares e joelhos! – O sulco

Divide e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,

Olhinegras
Bagas lançam escuros
Ganchos –

Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais

Me arrasta pelos ares –
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.

Godiva
Branca, me descasco –
Mãos mortas, asperezas mortas.

E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O choro da criança

Dissolve-se no muro
E eu
Sou flecha,

Orvalho que voa,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho

Vermelho, caldeirão da manhã.

“Poesia Pagã” de Björk

Pedalando entre
as correntes escuras
Eu encontro
uma cópia fiel
uma impressão triste
de prazer em mim

Lírios pretos girando totalmente maduros
Um código secreto esculpido
Lírios pretos girando totalmente maduros
Um código secreto esculpido

Ele oferece um aperto de mão
Cinco dedos entortados
Eles formam um modelo
ainda a ser correspondido

Na simplicidade da superfície
mas há uma cova mais escura em mim
É poesia pagã
Poesia pagã

Sinais de código morse
Eles pulsam e me despertam
da minha hibernação

Eu o amo… eu o amo
Eu o amo… eu o amo
Eu o amo… eu o amo
Eu o amo… eu o amo

Ela o ama… ela o ama
Ela o ama… ela o ama
Desta vez
Eu vou manter isso para mim

Ela o ama… ela o ama
Ela o ama… ela o ama
Desta vez
Eu vou me manter toda para mim

Ela o ama… ela o ama
Ela o ama… ela o ama
Mas ele faz com que eu queira
me machucar de novo

Mas ele faz com que eu queira
me machucar de novo

Ariel é o nome do cavalo em que Sylvia Plath costumava cavalgar quando morava em Devon. Munido dessa informação o leitor pode absorver com mais facilidade os sentimentos do poema, mas se o poema por si só necessita ser o responsável total em levar o leitor a um estado emocional, há de se convir que os poemas de Sylvia Plath requerem uma ultrassensibilidade. Porque para Plath a linguagem é “um signo puro, que deixou de designar as coisas”, ou seja: quando ela escreve um poema, vai encontrando as metáforas das metáforas e fica com elas. Quando, neste passeio vibrante que o poema propõe, a mulher que monta o cavalo torna-se também a própria paisagem e espuma como o trigo – ora, trigo não espuma! – ela está se referindo a visão poética que teve dos campos de trigo que viu: o mar.

Assim se dá “Poesia Pagã”. Só que neste caso, a mulher que passeia não se conecta com a paisagem: ela é a corrente escura, a parte agressiva e fundamental do que a locomove; por isso a impressão triste de prazer: porque o que dói também a movimenta. E se os sinais de códigos morse anunciam o naufrágio de uma relação amorosa, onde estar bem era estar hibernando, nós vemos que os cinco dedos oferecendo um aperto de mão na estrofe anterior referem-se (ferem) à polidez castradora do reencontro de um casal que outrora já foi íntimo (na simplicidade dessa superfície), liberando assim a cova mais profunda da poesia que é pagã porque nela o amor machuca, não edifica.

Esse machucar-se pode levar à morte? Na vida de Sylvia levou antes mesmo da publicação do livro, embora a sintonia com o suicídio aconteça em tom de ode em “Lady Lazarus”, amaciando-se incognitamente no resto da obra. Na vida de Björk não levou, mas a mensagem sentimental do álbum está doloridamente clara. Sylvia vai calando algumas mágoas (existe até um poema sobre isso, “A Coragem de Calar”) até chegar à última página onde não existe uma transcendência como a que existe no álbum de Björk. Mesmo que livro e álbum terminem em tom de esperança.

Última frase do livro Ariel, do poema “Hibernando” (vejam como até essa palavra se repete nos dois): “Para começar um ano novo?/ Que sabor terão, as rosas de Natal?/ As abelhas voam. Provam a primavera.”

Última frase do álbum Vespertine, da canção “Unison”: “Vamos nos unir esta noite/ Nós não devemos brigar/ Abraçar você bem forte/ Vamos nos unir esta noite/ Uníssono/ Uníssono.”

por Enzo Potel

Ariel
Sylvia Plath
Trad. de Rodrigo García Lopes e Maria C. L. de Macedo
Verus
2007

Björk
Vespertine
2001

1 Comentário »

  • Andrew Oliveira said:

    Nossa! Muito boas as suas definições destas duas divas, Björk e Sylvia são realmente as rainhas das sutilezas e metáforas! Mas o texto é bem resumido por sinal né? Ficou pairando na superfície ^^

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