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Debaixo do Vulcão, Malcolm Lowry

2 October 2009 1 Comentário

Debaixo do Vulcão, Malcolm LowryDemorei cerca de três meses a ler as 350 páginas de Debaixo do Vulcão. Quem se achar aliciado pela ideia de ter nas mãos uma verdadeira obra-prima da literatura do século XX e acreditar por isso que vai embarcar numa leitura puramente apaixonante e prazenteira, desengane-se: Debaixo do Vulcão é um livro denso, duro, um osso difícil de roer – diria mesmo que resiste a ser roído – mas cujas compensações, se bem sucedido o esforço, são incomparáveis. Não se trata efectivamente de uma leitura fácil – quer no que diz respeito à forma, quer ao tom, quer ao conteúdo. Exige algum espírito de sacrifício, alguma luta interior, resistência para sobreviver-lhe. Essencialmente, exige paciência e dedicação para lhe captar todas as nuances, já que a grande riqueza do texto reside também no estilo, e na sua construção complexa como uma sinfonia.

Trata-se sem dúvida de uma obra-prima da literatura do século XX, mas acima de tudo também da grande obra da vida de Malcolm Lowry, ora subtil ora descaradamente autobiográfica; aquela na qual não só o autor se recriou e sublimou enquanto personagem, mas em que também exibiu a sua mestria, inigualável, no domínio da narrativa através da própria forma da linguagem. Obra sucessivamente reconstruída e burilada durante quase 10 anos, Debaixo do Vulcão resulta naturalmente num portento que desafia os nervos de qualquer um. Para mais, conheço poucos autores com tão afirmada auto-consciência do processo criativo e tão justo juízo crítico sobre os elementos de estilo que ganham forma num romance escrito por si. Aquilo que, em suma, caracteriza o estilo de Debaixo do Vulcão é a marca de uma espécie de discurso desordenado, sobrepondo camadas sobre camadas sobre camadas, tornando muito difícil ao leitor a apreensão em pleno de toda a intrincada arquitectura da narrativa: aquilo que o próprio Lowry reconhece como sendo a marca de quem, querendo dizer seis coisas em simultâneo, se recusa à solução de dizê-las em sequência, pelo que abre parêntesis dentro de parêntesis dentro de parêntesis, como se o texto se abrisse e revelasse ao leitor não segundo uma estrutura linear simples, mas antes como um conjunto de bonecas russas encontradas sucessivamente umas dentro das outras.

Além disso, encontramos ainda outro pormenor de estilo muito interessante: esse discurso desordenado, elaborado por meio síncopes, interrupções, mudanças de direcção, avanços e recuos, acaba por imprimir na forma do texto a marca ilustrativa das deambulações mentais desordenadas e voláteis de um alcoólico irrecuperável, que é em simultâneo o autor/narrador e a figura da personagem do Cônsul, na qual este se projecta. Por esse motivo, a leitura empenhada de Debaixo do Vulcão induz um certo espírito de desequilíbrio no leitor – acabamos por sentir-nos também vagamente embriagados. Agora percebo então que a leitura não deveria arrastar-se durante três meses, mas antes é tarefa para ser repetida até à coragem de o devorar de um fôlego só.

Debaixo do Vulcão evoca o cenário rico, repleto de cambiantes, do México das cantinas, do mescal, do Dia dos Mortos e do espírito da festa, sempre dominado, em pano de fundo, pela presença esmagadora dos dois vulcões – o Popocatepetl e o Ixtaccihuatl –, que oprimem a paisagem ao mesmo tempo que a enriquecem. Tal como Lowry o descreve, «é o lugar ideal para situar o combate de um ser humano entre os poderes das trevas e da luz». Assim, a paisagem introduz também a imagem simbólica do barranco, ou precipício, como alegoria do abismo, que é por sua vez a alegoria por excelência do homem em queda, acelerando vertiginosamente numa espiral de auto-destruição. O próprio autor o explicita no prefácio escrito para a primeira edição francesa do romance:

«Este romance tem como tema (…) as forças que habitam no interior do homem, e que o levam a assustar-se consigo próprio. O tema é também o da queda do homem, o dos seus remorsos, e do seu incessante combate para alcançar a luz, sob o peso do passado, ou do seu destino.»

Lowry projecta-se na figura do Cônsul, o alcoólico irrecuperável, que encontra na bebida uma forma muito particular de lucidez; o único estado em que se acha capaz de raciocinar com clareza (ainda que muito mais lentamente) e enfrentar a desordem natural das coisas. A mulher do Cônsul, Yvonne, surge como uma mistura das duas esposas de Lowry, Jan Gabrial – que evoca o lado sombrio do casamento, o fracasso, a depressão, e em última instância o abandono e o refúgio violento no álcool – e Margerie Bonner – aquela através da qual nos deixa entrever uma porta para a felicidade, um sonho vago de uma casa à beira-mar, um vislumbre da salvação, a redenção. As relações entre as personagens, as várias dimensões do enredo, o próprio fio condutor da narrativa, nunca chegam a ser revelados de forma clara e directa – o que encontramos são fragmentos de uma história que nos chegam, frequentemente desconexos e desencontrados de um sentido aparente, segundo a perspectiva, em reflexão, das várias personagens. Ainda assim, esta espécie de mosaico que forma o quadro incompleto do que é o romance que Lowry quis escrever, permite construir uma rede subtil de deduções, através das quais é possível preencher alguns dos espaços em branco da história.

A narrativa desenrola-se ao longo de 12 capítulos, que correspondem (ainda que não linearmente) às 12 horas em que decorre o tempo real da acção. Ainda assim, o autor logo nos confunde: o diálogo de Jacques Laruelle com o Dr. Vigil no Dia dos Mortos de 1938 corresponde ao final da história, os acontecimentos de que falam são ainda absolutamente obscuros para nós; o capítulo seguinte procede à analepse e reencaminha-nos para o Dia dos Mortos de 1937, 12 meses antes – uma vez mais, a simbologia do número de capítulos não surge ao acaso. Poucos são os factos inequivocamente enunciados. Sabemos efectivamente que a mulher do Cônsul o abandonou, mas desconhecemos a ordem de eventos que conduziram a esse desfecho; podemos, por exemplo, intuir as traições da esposa do Cônsul, que terão induzido este ao alcoolismo desenfreado, ou teria sido antes o alcoolismo desenfreado do Cônsul, que terá conduzido a mulher a procurar outros homens…

A ambiguidade é quase sempre dominante. Aquilo que é claro, nesta espiral decadente em que embarcam, de um modo ou de outro, todas as personagens, é a impossibilidade de determinar com precisão o que terá originado o impulso destrutivo. A figura do Cônsul é arquetipal, o homem que se considera perdido e, por conseguinte, sem remédio: o abandono da mulher fá-lo sofrer, ama-a e deseja tê-la de volta; por outro lado, já se encontra demasiado distante da possibilidade de uma reconciliação, já não tem esperança, o amor não se basta sequer a si mesmo. Assim, incapaz de viver sem Yvonne, mas também já incapaz de saber como aceitá-la de volta, o Cônsul encontra-se perdido num limbo, um oceano turbulento, em que apenas a bebida parece impedi-lo de se afogar. Temos enfim o retrato de uma descida aos infernos, implacável e sem recurso. A simbologia é permanente: o barranco, ou precipício, evocado logo nas primeiras páginas do livro tem na região precisamente o nome de “Buraco do Inferno”; e é também do inferno que nos fala o autor no já referido prefácio, quando descreve a simbologia mística implícita em Debaixo do Vulcão:

«O domínio espiritual do Cônsul é, provavelmente, o Qlipoth, o mundo dos detritos e dos demónios, representado por uma Árvore da Vida invertida e dirigido por Belzebu, o deus das moscas.»

Não é difícil perceber que este será também o domínio do próprio Malcolm Lowry, escritor amaldiçoado, cuja certidão de óbito atesta uma nada menos do que poética «death by misadventure».

A edição portuguesa, da Relógio d’Água, é inequivocamente a mais bonita e mais cuidada do mundo. Já a opção de aproveitar a tradução já existente, da Livros do Brasil, a meu ver é discutível. Nem me vou alongar a apontar a infinidade de gralhas resultantes de uma revisão gráfica nitidamente deficiente. Mas à revisão da tradução no mínimo falta-lhe brio. E se é mais ou menos aceitável que uma gralha possa não perturbar a natureza do conteúdo lido, já não é tão aceitável que no texto se deturpe, modifique e até suprima parcialmente aspectos do texto original. Dois exemplos:

1) A tradutora não percebe a referência a “The Fall of the House of Usher” de Edgar Allan Poe e traduz «darkness had fallen, like the house of Usher» para «Como na casa de Usher, a escuridão acabara por se apossar de tudo». Torço o nariz. Já estamos a perder o sentido. Numa obra tão intimamente comprometida com as possibilidades de riqueza simbólica da língua, isto mortifica o espírito da coisa.

2) Na página 42 podemos ler, em português: «Embora as luzes houvessem voltado ao teatro e à cantina, nem por isso o espectáculo recomeçara. Laruelle encontrou-se sozinho, a uma mesa de canto que vagara na Cervecería XX, diante de mais um cálice de anis. Mantinha-se muito direito, com o livro das peças isabelinas fechado em cima da mesa a olhar para a raqueta encostada às costas da cadeira, que tinha em frente e que reservara para o Dr. Vigil.»
Já na página correspondente em inglês, lemos: «The lights had dimly come on again both in the theatre and the cantina, though the show had not recommenced, and M. Laruelle sat alone at a vacated corner table of the Cervecería XX with another anis before him. His stomach would suffer for it: it was only during the last year he had been drinking so heavily. He sat rigidly, the book of Elizabethan plays closed on the table, staring at the tennis racket propped against the back of the seat opposite he was keeping for Dr. Vigil.» Não sei o que terá acontecido ao estômago do pobre Laruelle durante a tradução, mas é certo que se perdeu. Eu só perguntaria por que carga de água…

Assim, só resta dizer que este é definitivamente um livro perigoso. Atravessa-o uma corrente fortíssima, violenta que, em nos apanhando desprevenidos pode bem conseguir arrastar-nos consigo. Para ler com cautela, mas sem reservas. E, de preferência, no original em inglês.

por Raquel Costa

Debaixo do Vulcão
Malcolm Lowry
trad. Virgínia Motta (revista)
Relógio d’Água
2007

1 Comentário »

  • sergio ventura bravo said:

    Excelente recensão. Parabéns. E tentar-se-á ler no original, sim. E fica a sugestão da belíssima adaptação de John Huston, para o cinema, em 1984, que apesar de ainda não ter lido o livro, parece-me muito diversa deste (por isso, para quem já leu, o filme poderá parecer incompleto e fraco, mas são dois objectos independentes…)

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