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O Triunfo das Mulheres, A. Sacramento Campos

12 October 2009 4 Comentários

O Triunfo das Mulheres, A. Sacramento CamposHá livros que custam a ler pelas mais variadas razões. Ou por o estilo ser denso, por os temas serem-nos penosos, desinteressantes ou incompreensíveis pela forma como são tratados, ou mesmo porque simplesmente nada na escrita nos apela ao gosto ou admiração. A juntar a isto, o trabalho do crítico, quando sério ou pelo menos quando serve para ultrapassar as barreiras da simples resenha, tem a tarefa da leitura dificultada pelo ter de apontar factualmente as virtudes e defeitos do que lê, já que para tal necessita pôr de parte o seu gosto pessoal.

O Triunfo das Mulheres (Fronteira do Caos Editores), de A. Sacramento Campos, é um livro que parece interessante, com uma capa excelente, um título curioso, sendo até o nome do autor “catchy” e fácil de fixar. De modo que foi com moderado entusiasmo que se abriu o livro, já que o leitor calejado de há muito sabe que bons embrulhos nem sempre contêm boas prendas.

Para começar, podemos afirmar que O Triunfo das Mulheres é um título enganador. O triunfo é para elas, mas pertencente a um senhor Raul Bellow, representante extraterrestre da “Ordem Cósmica”. Porém, pode o leitor ficar descansado que bem antes do fim do livro assistirá a esse senhor alienígena a 1) escolher cinco mulheres e um homem para seus representantes humanos e 2) a supervisioná-los nos primeiros meses da instauração da Nova Ordem, o que implicará, entre muitas e excelentes coisas, o colocar de mulheres na esmagadora maioria dos lugares de poder no planeta Terra, e 3) a ir-se embora e voltar três anos depois para verificar que o “trabalhinho” ficou bem feito. Lamento ter revelado quase todo o enredo do livro neste singelo parágrafo, mas pareceu-me demasiado oportuno fazê-lo, de modo a minimizar os estragos de uma análise mais profunda ao livro.

Infelizmente o trabalho do crítico é ingrato, pelo que teremos de expandir a análise. Tentaremos uma aproximação linear, de modo a que a valoração do texto em apreço seja directamente perceptível pelo incauto leitor, mas também para dar conta do que sente um crítico quando se depara com 303 páginas deste calibre.

Começando. Ignoremos delicadamente a dedicação da obra à falecida esposa e a posterior constatação da identidade estrangeira da actual companheira, informações que o autor nos oferece com gentileza. Registemos o aforismo de Cristo que tutela a obra apesar de nela o próprio cristianismo vir a ser proibido e substituído por uma religião universal de contornos indefinidos mas com um Deus único e uma suspeita caritas não aplicável a uma apreciável parte da humanidade. Tropecemos nos agradecimentos iniciais e subsequente prólogo, ambos não só desnecessários como preocupantes (para a leitura da história) por causa das repetições constantes e lugares-comuns defendidos (uma triste tendência editorial dos últimos tempos). Mesmo assim, avancemos destemidos pela narrativa adentro.

Ora então, parece que o mundo está, todo ele, irremediavelmente mal. Sim, este mundo em que vivemos e que o autor faz questão de pincelar nas páginas iniciais. Qual verdade siddhartica, o mundo revela-se-nos um lugar de sofrimento onde tudo está e corre mal, sem solução possível. No entanto, estamos armados com a convicção de que algo irá melhorar (afinal o livro chama-se o Triunfo…). Depois encontramos Carlos, o personagem principal, que passará o livro inteiro a ser psicadelicamente referido na terceira e na primeira pessoas do singular, deixando-nos na dúvida atroz se ele é o narrador, o narrado ou, como depressa suspeitaremos, um alter-ego do próprio autor. Porém, estas guinadas de consciência começarão a ocorrer um pouco mais à frente (infelizmente bem antes do meio do livro, e até ao seu fim).

Pois este Carlos recebe uma estranha carta do para ele estranho Raul Bellow, instando-o a dirigir-se a um país do norte da Europa por ter sido escolhido para participar de um “projecto global que irá transformar e purificar grande parte da humanidade”. Armado de valentia macholusitana, o nosso herói vai para o desconhecido, mas pode estar descansado que irá ficar em casa de uma velha amiga, Anna Blixt, que depressa ficaremos a saber ser uma ex-namorada, como é próprio de português que se preze.

Pouparei o leitor ao pouco enredo que se segue. Diga-se apenas que em breve o “projecto estará em andamento, e estará até quase o fim do livro. Nesse espaço temporal de três meses, todos os criminosos serão mortos, assim como os políticos corruptos, os senhores da guerra, os traficantes e fabricantes de armas, e algumas outras catrefas de meliantes e indesejados, numa verdadeira orgia de matança sem sangue. Todos os governos do mundo serão substituídos, e a maior parte dos seus chefes e ministros e demais funcionários, trocados à força por um verdadeiro exército de voluntariosas mulheres que, depressa o autor disso nos convence, decerto farão muito melhor trabalho. É caso para invocarmos agora o nome de Jesus, embora sob o signo de mera interjeição.

Este livro enferma de quase todos os defeitos que uma obra em prosa pode ter, e em especial uma primeira obra (atente-se no entanto que o primeiro livro do autor foi de poesia e data de 1984, pelo que houve tempo para trabalhar neste Triunfo…). Mais, é a inepta execução daquilo que todos já experimentámos, numa ou outra altura das nossas vidas, como “conversas de café” de qualidade cega e (ainda bem) execução nula: “isto é tudo uma miséria”; “o que é preciso é alguém que venha varrer isto tudo”; “políticos, drogados, criminosos e terroristas, era encostá-los todos a uma parede”, entre outras pérolas, ecoam através da obra.

Culpas quanto ao livro são atribuíveis a todos os que participaram na sua elaboração. Não só ao autor, como também à “assessora” (sic) que o transcreveu, ao revisor que o não reviu, ao editor que o publicou às cegas (ou pior ainda, talvez sabendo o que fazia), até à “apresentação” pública por uma Presidente de Câmara que se o leu nos fará preocupar com a qualidade da gestão política do município que tutela.

O que nos espanta (embora não muito) e que nos faz afirmar “quase” no parágrafo anterior, é o facto de o autor conseguir executar uma escrita clara, escorreita e agradável, pelo menos em 90% da narrativa (não estamos aqui, ainda, a descontar as repetições de tema, palavras, frases, e situações). Porém, o resto é o descalabro. Tracemos então os principais pecados, sabendo que o giz irá guinchar no quadro de forma desagradável.

Já referimos as constantes passagens de voz, que são nitidamente involuntárias, motivo de distracção, principalmente a partir do décimo capítulo. Indiciámos também a extrema repetição de opiniões, frases, vocábulos, situações, mas fique o leitor assegurado que, se fossem todas eliminadas, estaríamos na presença de um texto do tamanho de um mero conto, e não de um suposto romance. A lógica discursiva é, frequentemente, ausente e demencialmente circular; assistimos a junções de advérbios, diálogos inverosímeis e desconexos, passagens abruptas inexplicáveis, erros de datação, conflitos temáticos, etc., etc., etc… Enumerá-los ou exemplificá-los seria, acreditem, uma obra mais extensa que o próprio livro.

E não nos alongaremos nas temáticas tratadas por ser demasiado excruciante. Resumindo e complicando, as quatro grandes preocupações do romance são a Condição Feminina, o Crime, a Política e a Ecologia. O alien resolve tudo em três meses, com a ajuda de cinco mulheres e um português, bem como uma horda de “anjos” invisíveis. Curiosamente, a acção passa-se entre Setembro e Dezembro de 2007… mas quem pense estarmos na presença de uma “História alternativa” desengane-se, pois o próprio autor nos informa que o livro foi escrito em 2006…

Os problemas e as problemáticas da humanidade, já o dissemos, são tratados à força da execução pura e simples (com incongruentes sorrisos e “vamos tomar um café” por parte dos personagens a seguir a essas situações). Desaparecem, assim, milhões de seres humanos, mas não faz mal porque são todos criminosos, ditadores, drogados empedernidos, etc. Como essa gente deixa toda muito dinheiro, este é prontamente confiscado para as necessárias reformas sociais. E se o caro leitor está a pensar que a condição feminina é exaltada, até tem o seu quê de verdade visto que as mulheres são colocadas em posições de poder nesta “nova ordem cósmica”, mas é alvo de tal ineptitude voluntarista que se torna confrangedor. Ora vejamos:

“A mulher, que representa mais de metade da humanidade por ser o elo mais fraco tem sido vítima dessa tirania que se prolonga há três milénios! No entanto, deveria ter exactamente os mesmos direitos que o homem; para além das qualidades que em termos de igualdade revela, e que demonstram a sua superioridade.”

E se esta pérola não for suficiente, eis a da penúltima página do livro, nas palavras de Carlos, a personagem principal:

“Raul Bellow (…) disse, que tinha a sensação que não existiam homens, neste planeta! De facto ainda os há, não tantos como as mulheres. Mas há homens, muito jovens, mas homens. E sabem vocês, qual o lugar mais importante que eles ocupam? Dentro do coração de cada mulher!”

Para finalizar algo que vai desmerecidamente longo, deixo-vos com algumas das pérolas que este livro oferece, entre o tédio das inúmeras e ilegíveis repetições:

[Raul Bellow, o alien, diz:] “O concelho galáctico colocou à minha disposição duas centenas de ovnis.” (p. 39)

“Tornaste-te numa ditadora. – observou Sally, sorrindo – Vamos almoçar!” (p. 74)

“Uma centena de helicópteros, e uns milhares de homens no terreno, e África fica limpa [de minas] em seis meses.” (p. 78)

“nós Europeus, o berço da civilização” (p. 82)

“o voo teletransportado que fizeram desde Luanda” (p. 93)

“Teve receio de se aventurar a nado, pois os tubarões não deveriam andar longe, estava habituada ao seu cheiro. Afinal, África não lhe era desconhecida!” (p. 93)

Etc.

Que este crítico tenha sobrevivido a este terrível drama existencial que é O Triunfo das Mulheres não foi um milagre, mas foi difícil. Que no final se eleve a conclusão de que o esforço foi inglório, é uma mera constatação relativa aos ossos do ofício.

por N. Fonseca

O Triunfo das Mulheres
A. Sacramento Campos
Fronteira do Caos
2009

4 Comentários »

  • csd said:

    que delícia de texto!

    já li alguns livros assim mas normalmente fico tão mal disposta que nem me atrvo a comentá-los!

    assim louvo o teu talento, uma vez que é muito mais difícil criticar um livro mau do que analisar um que seja excelente.

    parabéns.

    csd

  • nfonseca said:

    :)

  • PML said:

    É, de facto, mais difícil criticar um livro mau. Pelo que percebi, salva-se a capa. Muito boa. Parabéns pelo texto, claro; muito bom.

  • Esta semana… « Rascunhos said:

    [...] – O Triunfo das Mulheres, A. Sacramento Campos (Orgia Literária) [...]

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