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Edward Gorey, o falso misantropo

26 September 2008 3 Comentários

Com mais de 50 anos de carreira, Edward Gorey é provavelmente um dos nomes mais relevantes no mundo da ilustração em todo o século XX, com uma pureza de estilo do desenho que evoca o rigor gráfico de Gustave Doré, e uma certa apetência pelo macabro que evoca o trabalho de artistas contemporâneos como Tim Burton ou Roman Dirge. No entanto, é consensual que a sua vastíssima e prolífica obra criativa é difícil de circunscrever a uma única categoria, e que a mera ilustração poderá designar pouco do que foi o grande trabalho artístico de Gorey.

Começando por realizar ilustrações para capas e textos das mais diversas obras literárias, desde o Dracula de Bram Stoker, ao Old Possum’s Book of Practical Cats de T.S. Eliot, a vários livros infantis de John Bellairs, conta ainda com dezenas de obras individuais em vários formatos: livros em miniatura, livros de pop-ups, sucessões de alfabetos ilustrados, histórias inteiramente desenhadas sem qualquer texto, composições de texto e ilustração, o que cria uma certa ambiguidade no que respeita a discernir se estamos perante um ilustrador que também escreve, ou antes um escritor que desenha. Actualmente, muitos dos seus trabalhos são considerados como autênticas obras de arte surrealistas, pelo que não será de estranhar que Gorey tenha invocado para descrever o seu próprio trabalho o “literary nonsense”, um estilo tornado célebre por Lewis Carroll e Edward Lear e caracterizado pela brincadeira com as regras lógicas e semânticas da linguagem, criando ambiências absurdas em que a falta de sentido se deve mais a um excesso de significado do que à falta dele.
O “nonsense” literário de Gorey poderá eventualmente prender-se com uma total ausência de propósito ou moral para as suas histórias, e por vezes mesmo uma falta de sentido, como tão bem exemplifica a belíssima The Object Lesson. Nesta história, o discurso aparenta possuir toda a coerência de respeito pelas regras gramaticais, mas quando observado de perto revela uma desconcertante incoerência no que diz respeito à semântica: as frases, congruentes em si, sucedem-se com uma total falta de lógica, como se surgissem aleatoriamente e não seguissem um fio narrativo coerente, o que torna a narrativa no seu todo incongruente. Não conseguimos perceber o sentido da sucessão dos factos – mas é também isso mesmo que nos cativa. O tom melancólico e quase poético do texto, acompanhado pelos desenhos exímios, algo lúgubres, reforça por um lado o fascínio, por outro o constrangimento.
Na obra de Gorey sobressaem algumas temáticas recorrentes, das quais se destacam os infortúnios infantis, o grotesco melancólico e uma resignada convivência com o insólito. Mas nem sempre é a incoerência lógica que domina a narrativa, dando por vezes lugar a um certo estilo naïf, em que cenários e episódios triviais são narrados com um lirismo desconcertante, sem lugar para qualquer corolário moralista, como se o princípio e fim de uma história não fossem relevantes, nem tivesse ela própria qualquer relevância que a distinga de outras histórias sobre incidentes triviais. É o caso do Donald Had a Difficulty, que nos narra o breve episódio de um rapazinho que espetou um pico no dedo a brincar e cuja mãe lho retirou – e eis a totalidade da história.
Esta espécie de puerilidade no tom e no traçado contrasta com o estilo no geral sombrio e macabro que caracteriza as suas histórias e os seus desenhos, facto que lhe valeu ainda a ambiguidade no discernimento se os seus livros se tratam de literatura para crianças ou para adultos. Claro que, observado de perto, será fácil presumir que o seu público-alvo será maioritariamente adulto (a não ser que pretendamos, desde muito cedo, traumatizar as nossas criancinhas). Apesar de não ser rara a presença de crianças nas suas histórias – além de Donald Had a Difficulty, há ainda por exemplo The Hapless Child, em que se narra a história trágica de uma menina que pensa ter perdido pai e mãe e vive uma vida muito infeliz e desafortunada, morrendo prematuramente; ou The Gashlycrumb Tinies, que não é mais do que uma sucessão de ilustrações das letras do alfabeto, em que cada uma designa a inicial do nome de uma criança que teve um qualquer fim trágico (a última ilustração mostra 26 lápides no cemitério) –, os terrores inexplicáveis, as tragédias sanguinárias, a sordidez fleumática e uma certa maliciosidade cómica das suas histórias destacam claramente o autor da categoria da literatura infantil.

Um exemplo mais evidente será talvez The Loathsome Couple>, que narra a história de Harold e Mona, um casal de delinquentes que se conhecem e descobrem de imediato uma certa afinidade para o mal. Incapazes de se dedicar ao amor, dedicam a sua vida a assassinar crianças, acabando por ser presos e declarados mentalmente perturbados. Este tipo de incursão pela perversidade inexplicável da natureza humana, pela violência e pelo crime é frequente na obra de Edward Gorey, mas o tom caricatural aproxima-o mais de uma certa forma de tragicomédia do que propriamente de uma apologia malévola dos demónios da vida quotidiana. O próprio autor afirmava possuir meramente um grande interesse pelas coisas da vida real. Não deixou de lhe valer, contudo, a designação de criador de literatura de cariz gótico, ao que respondeu que todo o absu
rdo tem que ser horrível, que não pode haver absurdo (nem arte, para todos os efeitos) feliz.
Edward Gorey era ele próprio uma personagem algo estranha, ambígua, fascinante: sem orientação sexual definida ou grande apetência para envolvimentos românticos e sentimentais, viveu essencialmente uma vida solitária, ainda que o à vontade no que respeita à convivência com as pessoas, e o afecto com que o recordam amigos, vizinhos e conhecidos dificilmente permita encará-lo como um misantropo. Era conhecido pelo facto de viver rodeado de inúmeros gatos, figuras que aparecem frequentemente nas suas histórias. O estilo solene e sombrio dos seus desenhos, de traçado vigoroso, recriando frequentemente atmosferas vitorianas e personagens aperaltadas, de olhar suspeito e sorumbático, cria frequentemente a confusão sobre a sua naturalidade, imaginando-o como mais típico de um autor inglês, quando na verdade Gorey nasceu e viveu toda a sua vida nos Estados Unidos.
Viveu entre 1925 e 2000, sendo autor de mais de uma centena de obras individuais colaborações com outros autores, tais como John Updike (autor do texto de The Twelve Terrors of Christmas, que mostra uma certa perspectiva cínica e capitalista das tradições do Natal) ou Rex Warner (autor do livro Men and Gods, sobre as lendas e mitos da Grécia Antiga, que Gorey ilustrou). Assinou frequentemente as suas obras com pseudónimos que basicamente constituíam anagramas do seu nome, como o Odgred Weary de The Curious Sofa. Influenciou e influencia ainda toda uma geração de novos ilustradores que seguem o rasto hipnotizante do seu estilo único, melancólico, negro, depressivo, tão em voga nos dias que correm, transformando-o necessariamente num autor de culto. Talvez tendamos todos, de facto, à depressão; talvez seja essa a maldição deste nosso novo século. O que é certo é que cada vez mais o bom humor é negro e que a morte na arte é um elemento de fascínio.
Depois de ter nas mãos o primeiro livro de Edward Gorey não é possível ficar por aí. O desejo de ver tudo, conhecer tudo, instala-se como uma febre. E vale a pena: é uma viagem maravilhosa a um mundo que poderia ser como o País das Maravilhas da Alice se fosse recriado num filme de David Lynch. Em português, temos uma edição da Errata intitulada Quatro Estórias, que conta com a tradução de Margarida Vale de Gato para The Loathsome Couple, The Epileptic Bicycle, The Doubtful Guest e The Remembered Visit. Para quem desejar um mergulho mais a fundo, uma opção a considerar é a série de antologias editadas há vários anos sob os títulos Amphigorey, Amphigorey Again, Amphigorey Too e Amphigorey Also, que reúnem cada uma cerca de 15 histórias clássicas do autor. Para os mais puristas, a grande maioria dos livros a título individual ainda se encontra disponível. A bibliografia é extensa. Podendo, é fartar, vilanagem!

por Raquel Costa

3 Comentários »

  • pandoracomplexa said:

    foi bom ler ser Gorey.

  • Jucca said:

    Artigo muito bom! Parabéns! :)
    Queria algo dele publicado aqui no Brasil…

  • Hoje acordei com as ilustrações de Edward Gorey « o absurdo said:

    [...] obrigatório ler este excelente ensaio sobre o Edward Gorey publicado na Orgia [...]

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