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Blackpot, Dennis McShade

17 November 2009 9 Comentários

Blackpot - Dennis McShadeBlackpot é a criação literária de um pesadelo, a invenção de uma chave, uma libertação. É uma trama na prosa certeira e desconcertantemente eficaz de Dennis McShade, que convoca a morte, conversa com ela, verte o encontro em palavras como dentes a morderem a precariedade da existência, a estreiteza do mundo. Falo de transgressão: a transgressão dos limites que é imanente à arte, e da qual a obra de Dinis Machado é digníssima representante.

É implacável, negro e assombrosamente iluminado, este Blackpot. Carrega um enleado e terrível pacto com a morte, enfrenta-lhe o carácter inexorável para a corrigir e dar voz à vida. É uma novela sobre a noite que implora, sobre a morte que se vê ao espelho à procura de outra forma que o povoe, à procura de outro sonho, à procura de outra voz. Por isso, o espelho onde a personagem Gulliver se mira é a vigília que procura decifrar o labirinto; por isto, entrarmos em Blackpot é entrarmos no «pesadelo», como o descrito por Jorge Luís Borges, uma «sala circular cujas paredes e portas eram de espelho, de modo que quem entrasse nessa sala ficava no centro de um labirinto realmente infinito». E o labirinto espraia-se por 31 capítulos curtos, vertiginosos e cinematográficos, onde as personagens se matam umas às outras e disparar é o verbo auditivo que a prosa silencia de forma terrível: sob o fumo do tabaco (da narrativa) e o assombro inaudito (do leitor), cumprem-se as balas surdas disparadas das armas com silenciador ou da metralhadora assim emudecida: «as balas da metralhadora estilhaçaram objectos e enfiaram-se, surdamente, nas paredes».

Não há uma personagem central neste Blackpot. Ela será a morte ou a vida, porquanto nomear uma é evidenciar a outra. Há uma dezena de homens, membros do crime organizado, emboscados na sua própria rede, assassinos precisos no disparo, especialistas em ruínas, solitários, expostos ao critério misterioso de «reorganização cíclica» da Organização. Se há conflito no interior do próprio jogo com regras que obscuramente mudam de direcções, o conflito está também nos próprios jogadores enquanto lugares-limite com que se faz a questionação do homem na sua humanidade: no jogo da vida há que matar primeiro, pois «os acontecimentos, às vezes, vão à nossa frente». Também a questão da negação da identidade tem em Blackpot uma forma indeclinável: o nome dos homens é tão-só o posto que têm na engrenagem da Organização, pelo que, depois de mortos, o seus nomes passam a outros.

Mostrando-nos o trabalho dos relógios na sombra, a narrativa mostra-nos que viver é envelhecer, o acumular de males, a doença. Também neste sentido, Blackpot impõe o silêncio da meditação: a vida é dano, o homem joguete, pelo que há que encontrar o “life force” (de Bernard Shaw), a força vital para se recriar a existência, força que está no exercício da escrita com que se esconjura o desamparo. Na narrativa, desfilam homens marcados, desenganados, de meia-idade, homens que são o que é ninguém e uma campainha sinistra diz-nos que ninguém é o que todos somos.

Gulliver, que não prescinde de esfregar o corpo e as mãos com álcool, olha para o espelho, sente náuseas, procura a sanita, vomita alguma bílis e sente-se aliviado. Falar para o retrato do pai morto, como fazia há 30 anos, também o alivia; Armador mata há 40 anos. Ajuda a filha a estudar Matemática, tosse e cospe sangue para um lenço, tem dores de cabeça e febre. Leva a filha à escola, beija-a, vê-a desaparecer no fundo do átrio. E sabe que vai morrer, de doença ou com uma bala; Lorenzo só vê sombras, «ardiam-lhe os olhos e chorava devagar», nada que os médicos pudessem fazer. Com os óculos, olha para o calendário da parede, desiste ao tentar ler os títulos dos jornais, lava os olhos e espera; Ornatto tem uma perna a apodrecer, sem cura, só lhe restando os comprimidos para as dores; Condor sabe que o querem matar, passa a mão pelo peito flácido e preocupa-se com o peso excessivo; Legos discorre sobre os seus problemas enquanto pesca, espera que o peixe morda a isca e gosta daquela «mistura de placidez e impaciência». No final, Victor discursa à amizade e «Os candelabros e as jóias cintilaram.». Até quando é Victor o vencedor, inquire-se em cima dum texto que recorda o carácter precário da existência e que a vida sem nós é pensável.

Contra a morte, toda a morte, há ainda e sempre a voz, mostra-nos Dennis McShade neste Blackpot, onde recebemos, também, fortíssimo, o eco da voz de Herberto Helder: «Olha: eu queria saber em que parte / se morre, para ter uma flor e com ela / atravessar vozes leves e ardentes e crimes / sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para / a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio / de febre para o lado de uma canção /terrível e fria.» (1)

(1) Herberto Helder, Ofício Cantante, p.247, Assírio & Alvim

Por Teresa Sá Couto

Blackpot
Dennis McShade
Assírio e Alvim
2009

9 Comentários »

  • Luís Sampaio said:

    Magnífico!!

  • Tiago Coen said:

    Teresa: como sempre, a tua apreciação crítica é de um envolvimento ímpar.
    Bendita a obra que caia nas tuas mãos! Estou certo que não deve haver autor actualmente em Portugal que não deseje ver o seu trabalho passar pelo teu crivo.
    Muito bom, o teu texto! Mesmo quem não aprecie o género, fica logo com vontade de ir comprar o livro.

  • Teresa Sá Couto said:

    Gratíssima, Luís e Tiago: são palavras dessas que me fazem ser cada vez mais exigente com os textos que elaboro.

    Com “Blackpot” fica editada a obra integral de Dennis McShade, todos os tomos (quatro) com capa de João Fazenda. Foi uma honra para mim escrever sobre todos eles.

  • Henrique Normando said:

    Gostei muito da sua crítica.Li alguns livros do Dinis Machado,designadamente “O que diz Molero” que é de facto um livro extraordinário.Mas li depois “Mulher e arma com guitarra espanhola”e”Reduto quase final” tendo sido ambos uma enorme decepção.Não pareciam escritos pelo mesmo autor.No entanto,graças à magia da sua crítica,vou tentar ler o “Blackpot”.Espero que a sua crítica não seja melhor que o livro.
    Obrigado
    Henrique Normando

  • Teresa Sá Couto said:

    Obrigada, Henrique.
    Espero que goste do “Blackpot”.
    Bom Ano.
    TSC

  • henrique normando said:

    UM BOM ANO PARA SI TAMBÉM.
    Estou a ler dois livros em simultâneo, o que em mim é habitual…tem a ver com o enquadramento do estado de espírito.
    A seguir….Blackpot.
    H.N.

  • henrique normando said:

    Amiga Teresa Sá Couto

    Li o Blackpot
    Eu tinha razão.A sua crítica É melhor do que o livro.
    Como este livro seria interessante, se a sua “crítica” estivesse enredada no texto e dele fizesse parte integrante…mas,as coisas são como são,restando portanto um livro que bem podia ser o guião das legendas de uma Banda Desenhada.Pessoalmente,gostaria de ver este livro transformado numa boa B.D.
    Mesmo assim valeu a pena!
    Um abraço e obrigado.
    H.N.

  • Teresa Sá Couto said:

    É clara a influência da Banda Desenhada na escrita de Dinis Machado, como referi no texto sobre o «A Mão Direita do Diabo», e aqui, em Blackpot, bem patente. Ainda, este texto é um magistral guião para um filme. Li algures que um cineasta deveria pegar neste texto e levá-lo já para a tela.
    Subscrevo.

    Um abraço, Henrique

    TSC

  • henrique normando said:

    Totalmente de acordo,amiga Teresa.Receio não ter lido o seu texto sobre “A Mão Direita do Diabo”.

    Grande abraço
    H.N.

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