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Uma noite na biblioteca, Jean-Christophe Bailly

30 November 2009 0 Comentários

Uma Noite na Biblioteca - Jean-Christophe BaillyCette histoire de fantômes, define assim Jean-Christophe Bailly (n. 1949) Uma noite na biblioteca. Mas que fantasmas são estes? Sei os seus nomes, mas o que são? Livros? As quatro personagens desta peça são livros. Cada um é um livro e cada livro o seu autor – mas o autor, na altura que escreveu esse mesmo livro, nem mais nem menos no seu ser –, fracção do autor. Mas o que é um fragmento de uma obra senão um livro? (ou deixar no plural: E o que são fragmentos de um obra senão livros?)

Nessa noite (que pode ser qualquer uma) vão estar juntos numa sala de leitura (de uma biblioteca) Bertoli (o conferencista), Ragionello (o sapiente), Alegoria (a inquietada) e Fantolin (o recém-chegado). Cada um com a sua personalidade e maneira de estar e sobreviver numa biblioteca.

Se ainda há dúvida que permaneça entre a distinção de realidade e Real, que acabe aqui. Ou que comece por acabar aqui. Que noção de realidade do Real temos nós? Talvez a mesma quantidade que estes fantasmas de Bailly.

FANTOLIN

Mas, então, quantos mundos existem?

RAGIONELLO

Tantos quantos tu quiseres e um só que os reúne, mas que nunca está certo de os conter a todos. Há como que fugas, evasões. (p. 46)

E da janela, que dá acesso a uma parte da vida quotidiana lá fora, na voz de Alegoria, nasce a necessidade de decifrar.

ALEGORIA

[...] Tudo o que eles chamam o real, donde vimos, e onde nunca iremos. (p. 21)

[...] A intenção mata a verdade. (p. 27)

[...] Quando começa a ficção? Quando o acontecimento tem lugar ou quando desaparece e é contado? (p. 24)

Etimologicamente o termo fantasma está para imagem como o termo fantasia para a imaginação. O confronto com normas da razão acontece no campo da fantasia. E é nesse mesmo confronto com o mundo planificado da razão, da vida quotidiana (que de racional começa a ter pouco), que Gaston Bachelard enaltece a fantasia como faculdade do irreal que possibilita a faculdade do real. Bailly aproveita para abrir possibilidades com a vida quotidiana que o livro tem depois de ser livro, a vida quotidiana que a biblioteca tem depois de ser biblioteca, o objecto e o lugar no seu extra.

Os diálogos de uma narrativa simples mas simplesmente eficaz, precisa, cuidada e que nos coloca indefesos perante Uma noite na biblioteca. É uma noite breve, mas não assistiremos a ela indiferentes.

Ragionello

A nós, livros, escreveram-nos e arrumaram-nos em prateleiras para assustar o medo, mas não funcionou. (pp. 25-26)

Nota adicional: Apanhando a boleia da promoção que foi feita para divulgar o livro Uma noite na biblioteca, o livro físico apenas o tive depois de assistir à peça produzida pelo Teatro da Rainha (encenada por Luís Varela) e à apresentação do livro com a presença do autor, encenador/tradutor e tradutora. E só após umas releituras escrevi esta crítica.

por Paulo Serra

Uma noite na biblioteca
Jean-Christophe Bailly
trad. Cristine Zurbach e Luís Varela
Cotovia
2009

Cette histoire de fantômes define assim Jean-Christophe Bailly (n. 1949) Uma noite na biblioteca. Mas que fantasmas são estes? Sei os seus nomes, mas o que são? Livros? As quatro personagens desta peça são livros. Cada um é um livro e cada livro o seu autor – mas o autor na altura que escreveu esse mesmo livro, nem mais nem menos no seu ser –, fracção do autor. Mas o que é um fragmento de uma obra senão um livro. (ou deixar no plural: E o que são fragmentos de um obra senão livros)

Nessa noite (que pode ser qualquer uma) vão estar juntos numa sala de leitura (de uma biblioteca) Bertoli (o conferencista), Ragionello (o sapiente), Alegoria (a inquietada) e Fantolin (o recém-chegado). Cada um com a sua personalidade e maneira de estar e sobreviver numa biblioteca.

Se ainda há dúvida que permaneça entre a distinção de realidade e Real, que acabe aqui. Ou que comece por acabar aqui. Que noção de realidade do Real temos nós? Talvez a mesma quantidade que estes fantasmas de Bailly.

FANTOLIN

Mas, então, quantos mundos existem?

Ragionello

Tantos quantos tu quiseres e um só que os reúne, mas que nunca está certo de os conter a todos. Há como que fugas, evasões. (p. 46)

E da janela, que dá acesso a uma parte da vida quotidiana lá fora, na voz de Alegoria, nasce a necessidade de decifrar.

ALEGORIA

[...] Tudo o que eles chamam o real, donde vimos, e onde nunca iremos. (p. 21)

[...] A intenção mata a verdade. (p. 27)

[...] Quando começa a ficção? Quando o acontecimento tem lugar ou quando desaparece e é contado? (p. 24)

Etimologicamente o termo fantasma está para imagem como o termo fantasia para a imaginação. O confronto com normas da razão acontece no campo da fantasia. E é nesse mesmo confronto com o mundo planificado da razão, da vida quotidiana (que de racional começa a ter pouco), que Gaston Bachelard enaltece a fantasia como faculdade do irreal que possibilita a faculdade do real. Bailly aproveita para abrir possibilidades com a vida quotidiana que o livro tem depois de ser livro, a vida quotidiana que a biblioteca tem depois de ser biblioteca, o objecto e o lugar no seu extra.

Os diálogos de uma narrativa simples mas simplesmente eficaz, precisa, cuidada e que nos coloca indefesos perante Uma noite na biblioteca. É uma noite breve, mas não assistiremos a ela indiferentes.

Ragionello

A nós, livros, escreveram-nos e arrumaram-nos em prateleiras para assustar o medo, mas não funcionou. (pp. 25-26)

Nota adicional: Apanhando a boleia da promoção que foi feita para divulgar o livro Uma noite na biblioteca, o livro físico apenas o tive depois de assistir à peça produzida pelo Teatro da Rainha (encenada por Luís Varela) e à apresentação do livro com a presença do autor, encenador/tradutor e tradutora. E só após umas releituras escrevi esta crítica.

Uma noite na biblioteca

Jean-Christophe Bailly

trad. Cristine Zurbach e Luís Varela

Cotovia

2009

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