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O Livro dos Guerrilheiros, José Luandino Vieira

4 January 2010 1 Comentário

O Livro dos Guerrilheiros, José Luandino VieiraJosé Luandino Vieira é cidadão angolano e destacou-se nos anos 60 e 70 como participante activo no Movimento de Libertação Nacional e constituição da República Popular de Angola. Tem um curriculum polivalente e diversificado, tanto em termos profissionais como no que toca à actividade política. Foi preso em 1959 no âmbito do “Processo dos 50” sendo, depois, libertado e, em 1961, preso novamente e condenado a catorze anos de prisão, rodeado de medidas de segurança. Foi transferido em 1964 para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou oito anos.

Foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada, em Lisboa. É a partir desta data que inicia a publicação da sua obra escrita, sobretudo, durante o tempo em que esteve preso. Foi membro fundador da União dos Escritores Angolanos tendo aí exercido a função de Secretário-geral, desde a sua fundação, em Dezembro de 1975, até 1992.

Para a investigadora Rita Chaves, da Universidade de São Paulo, n’O Livro dos Guerrilheiros, a obra de que aqui tratamos, o autor não procura encontrar uma resposta, ou respostas, que justifiquem o sentido da guerrilha mas antes “recoloca questões que legitimam o mergulho na memória” da história recente de Angola.

N’O Livro dos Guerrilheiros, o autor descreve a geografia da região, localiza o espaço onde decorre a narrativa, descrevendo uma paisagem humanizada e animizada, na qual todos os elementos parecem ser dotados de alma e pensamento tal como os humanos, aproximando muito a sua escrita da de Joseph Conrad e, particularmente, da obra O Coração das Trevas.

No entanto, segundo Rita Chaves, José Luandino Vieira “após focalizar a geografia do local da acção em seu sentido mais amplo (…), fixa o olhar nos guerrilheiros para, a partir das suas vozes, captar a guerrilha como uma vivência em movimento, como realidade de um presente que ainda não poderia conhecer os erros, os acertos, a euforia e a frustração…”

Segundo a mesma investigadora, a escrita de Luandino Vieira assenta “na crença da possibilidade de recuperar toda a tradição patente no simbolismo associado ao processo de criação literária, numa linha diferente daquela que é marcada pela euforia, na segunda metade dos anos 1970”, assim como daquela que brota da “ressaca que se sucedeu à renúncia do projecto revolucionário”.

“Nessa mescla de testemunho e ficção, Luandino, com a sua inquietante radicalidade, leva-nos por uma viagem marcada pelo risco, arrastando-nos para um turbilhão de imagens e sentidos que impossibilita qualquer hipótese de sossego durante o texto, assim como diante da extraordinária realidade que a escrita tão concisa consegue representar”.

O Livro dos Guerrilheiros é, por isso, mais do que um texto literário. Trata-se de um trabalho que é, ao mesmo tempo, um documentário no qual abundam cenas cheias de movimento, oferecendo ao leitor a visualização da acção e das movimentações das personagens com um realismo tão vívido que nos dá a ilusão de estarmos perante o grande ecrã a assistir à guerrilha em directo.

O livro apresenta, contudo, uma dificuldade: a disponibilização do glossário relativo à terminologia local, dos regionalismos, línguas e dialectos nativos, apenas no final da narrativa, o que retira algum dinamismo à leitura, pela necessidade de interrupção constante de forma a proceder-se à consulta do mesmo glossário. Uma dificuldade que seria facilmente minimizada se fossem incluídas notas de rodapé, permitindo uma melhor assimilação da mesma terminologia tornando, ao mesmo tempo, a leitura muito mais fluida.

Sem se limitar ao mergulho na memória histórica referente ao tempo da colonização portuguesa, José Luandino Vieira transpõe para a escrita de O Livro dos Guerrilheiros o imaginário colectivo, retirado das crenças e das lendas pré-coloniais da cultura angolana, fruto da tradição oral, onde impera o sincretismo religioso e a visão da natureza – e da floresta em particular – como local sagrado, templo de culto e o local onde o imprevisto faz acontecer as metamorfoses da vida.

A floresta é o local onde se dilui a fronteira entre o homem e a natureza, a ponto de, a determinada altura, ser impossível distingui-los. Trata-se de uma forma de estar na vida que toma a forma de um poderoso adjuvante do guerrilheiro da floresta, ao dotá-lo de uma camuflagem eficaz, conferindo-lhe uma importante vantagem face ao inimigo, mesmo quando apetrechado de um equipamento mais sofisticado em relação ao dos habitantes locais.

O guerrilheiro angolano tem, na floresta, a sua casa, conhece-lhe todos os cantos, faz dela a sua aliada. Uma aliança que se torna decisiva para quando se trata de derrotar o adversário…

Da mesma forma, a dissolução da fronteira entre o natural e o sobrenatural, está também muito presente na obra. Sobretudo quando descreve a morte ou desaparecimento do soldado na floresta, sem se saber exactamente se foi vitimado pela guerra, pela floresta, ou simplesmente alvo de uma metamorfose, fruto de um feitiço ou encantamento por parte dos espíritos da floresta, ou dos deuses que armam o soldado angolano com poderes que ultrapassam as faculdades humanas normais, revestindo-o com as características da serpente, da águia ou da onça, ou ainda fazendo-o confundir-se com a vegetação, como é o caso do guerrilheiro que não sabemos muito bem se morre ou se se transforma em homem-árvore, passando a viver como um espírito da floresta.

O conflito ou choque entre culturas está, também, muito vincado. Trata-se da descrição da prepotência inerente ao processo de aculturação ou tentativa de supressão da cultura africana e do subsequente domínio europeu. A primeira das narrativas é, talvez, aquela que melhor foca este aspecto, onde o guerrilheiro Diamantino Kinhoka relata a prepotência de que foi alvo por parte dos docentes na escola, a par da crueldade sofrida por parte das outras crianças, quase todas filhas de colonos portugueses. A transposição da guerrilha para o recreio da mesma escola, onde ambos os lados – colonizador e colonizado –, se defrontam com a mesma crueldade e violência dos adultos e onde o ódio se apresenta no seu estado mais puro, porque despido do mais leve vestígio de hipocrisia, faz desta narrativa a mais dura e chocante de todas as que estão reunidas neste volume.

O Livro dos Guerrilheiros adquire, assim, uma importante função social: a abertura de uma janela para a História de Angola nas últimas décadas, a permitir olhar (in)directamente o rosto da Medusa e contemplar o horror de um passado a ser corrigido no presente.

por Cláudia de Sousa Dias

O Livro dos Guerrilheiros
José Luandino Vieira
Caminho
2009

1 Comentário »

  • Gustavo Carneiro said:

    Sobre as notas de rodapé concordo plenamente. Quando há uns meses atrás li o “Crime & Punshiment” do Dostoievski deparei-me com o mesmo problema. Mas no meu caso era ainda pior, porque o livro tem seis partes, e as notas de rodapé de cada parte estavam no fim da parte respectiva, não no fim do livro! Encontrá-las a meio de uma leitura não era tarefa muito fácil…

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