O Viajante sem Sono, José Tolentino Mendonça
O Viajante sem Sono, de José Tolentino Mendonça, lembra-nos que o nome de Deus é indizível – «Deus não aparece no poema / apenas escutamos a sua voz de cinza / e assistimos sem compreender / a escuras perícias» (p. 7) –, mas não o faz fechando-se à tentativa de o rodear, de buscar, sílaba a sílaba, uma enunciação que seja a possibilidade de segredá-lo – «Só há um modo verdadeiro de rezar: / estende o teu corpo ao longo do barco / que desce silencioso o canal» (p. 7). E de segredos, em grande medida, se faz este livro, de uma voz que se pressente mais do que se ouve em pleno. É o som da respiração, a que é possível com os pulmões que nos couberam, a que se pode alcançar, quando o ar parece um bem precioso, quando, sem escaladas, ele é rarefeito e dói. O corpo é a actualização possível da alma, a única jangada com que podemos contar para a mais escura das jornadas: caminho para a morte, demanda de um sentido que nos ilude e quase nunca chega a tempo. Repare-se como, por exemplo, se cindem o transcendente e o corpóreo – «rezar» / «corpo» –, sem que a transição propriamente o seja, e como uma da outra decorrem em interdependência.
Perante a cristalização dos actos e da palavra – «Há um momento sem explicação / em que a porta de casa nos resiste / os aspectos habituais debatem-se» (p. 26) –, propõe-se a restauração do ritual – «Aperto contra ti a infelicidade dos meus braços/ a navalha não do jogo, mas do rito» (p. 17) –, um cerimonial que parece estar antes da codificação religiosa, que surge mais como a urgência de horizontes mais vastos, um voo em potência, uma necessidade de largar ferros, de equacionar uma determinada certeza – «Os dias são um prólogo se uma pessoa caminha / até que uma verdade lhe seja revelada» (p. 41). À palavra, gesto provisório e irreal, mais que todos, sobre a terra, restará repor a eventualidade remota de uma comunhão – «A minha arte é uma espécie de pacto: / não distingo as áreas selvagens das cultivadas / e elas não distinguem a minha sombra / da minha luz» (p. 45) –, uma entrega para sempre ameaçada pelos rumores da escuridade – «Quando a noite sussurrar / a imensidade sem coração» (p. 15) – e a dissolução de tudo – «Perante linhas que se despenham / numa desarticulação cadenciada / um pensamento, mesmo o mais trivial / coloca-nos no centro de uma tempestade» (p. 32).
Um livro que me parece escrito contra o risco de desvirtuação de um certo sentido pleno, de corrupção de um plano que dispense as contingências. Nesse sentido, creio tratar-se de um conjunto de poemas não escritos contra o mundo – «o mundo está sempre a florescer / Longe de mim diminuir o louvor» (p. 14) –, porque são bem do mundo estes versos – «Talvez nos caiba viver por cidades estranhas / em casas que esconderão sempre o seu medo / e a sua glória / sós diante dos céus / sem a certeza culminante» (p. 19) –, mas contra o ataque a uma dimensão que o transcenda sem o perder de vista. E há uma vontade de dizer as coisas desse mundo, por meio do poema, lembrando os arrimos terrestres para a melancolia, ou para o júbilo – «O poema pode conter: / coisas certas, coisas incorrectas, venenos para / manter fora do alcance / (…) / um disco dos Smiths / correntes marítimas em vez de correntes literárias» (p. 13).
A imensa fragilidade da vida é a do ser, figurado, de forma tão simples (mas sem simplismos, creio), pela conjugação entre o vocábulo “instante” e o determinativo “de vidro” – «o instante de vidro / onde a respiração se quebra» (p. 37) –, unidos pela “respiração”, à qual é atribuída um atributo sólido, advindo do “vidro”, advindo do instante, que promove e desfaz.
[versão ligeiramente ampliada de um texto publicado no Expresso, «Actual», 24 de Dezembro, 2009]
por Hugo Pinto Santos
O Viajante sem Sono
José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim
2009










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