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Os Irmãos Tanner, Robert Walser

19 January 2010 0 Comentários

«Tenho de procurar uma nova vida, mesmo que a minha vida inteira venha a ser apenas a busca de uma nova vida.» (pp. 110-111)

Esta decisão de Simon Tanner, protagonista deste romance de Robert Walser, é ao mesmo tempo o resumo e a antítese de toda a obra. O resumo porque todo o romance é uma longa deambulação de Simon pela vida, pelo espaço, pelo tempo. Uma deambulação sem guião, sem sequer um destino final. Ou seja, como uma vida feita da busca de uma vida. Mas a citação é também a antítese da obra porque Simon não procura nunca, verdadeiramente, uma nova vida. Prolonga incessantemente a sua forma de viver, que é um arrastar-se pela vida sem propósito, saltando de emprego em emprego por inadaptabilidade crónica. Isto quer dizer que a citação apresentada é a antítese do romance porque Simon não busca: o que encontra, encontra quase por acaso.

Publicado em 1907, Os Irmãos Tanner é o segundo romance do suíço Robert Walser (1878-1956) e utiliza uma base que se repete em outras obras do autor: a personagem errante que torna a obra errante. O romance que não é romance, mas antes uma longa caminhada em que vão surgindo espaçadamente novos episódios, novos cenários, novas personagens. É uma obra que vai caminhando devagar, à imagem do que gostava de fazer o seu autor, que viria a falecer precisamente num desses passeios, no dia de Natal de 1956.

Em Os Irmãos Tanner – e ao contrário do que o título possa levar a crer – acompanhamos, como já foi dito, a deambulação de Simon. Os irmãos de Simon, que são quatro (ou, pelo menos, são estes os que o narrador nos permite conhecer), vão aparecendo e desaparecendo, ao ritmo da errância do protagonista. Klaus é o mais velho, o mais responsável, estabelecido na vida mas que «muitas vezes se recriminava severamente por ter falhado o dever de ser um bocadinho feliz.» (p. 10). Hedwig também tem uma vida estável enquanto professora numa pequena povoação e é cândida e pura e toda a gente sente por ela muito carinho. A certa altura Simon vive durante uns tempos em casa da sua irmã, que nunca esquece a ocupação de Simon e a sua passividade perante a vida, mas que o ama profundamente e o queria ter sempre junto a si: «É pena que não possas ser para mim mais do que um irmão, também tu gostarias de ser mais do que um irmão, pois assentes com a cabeça.» (p. 108). Kaspar é um artista, um pintor, com uma imensa paixão pela vida mas com uma existência errante semelhante à de Simon. Kaspar também vive um período com Simon, numa casa alugada a Klara, com quem Kaspar viverá um amor. O quarto irmão é quase esquecido na obra. Só há um episódio em que Simon ouve uns homens num bar a falarem sobre esse seu irmão, sem saberem que é familiar do ouvinte. Chama-se Emil Tanner e vive numa instituição psiquiátrica.

Os irmãos Tanner são muitos, mas é em Simon que tudo se centra. Quando pensamos nisso, na razão de assim ser, é quase inevitável não pensar que poderia ter sido outro. Na verdade, do que nos é dado a conhecer dos irmãos, parece até que qualquer um deles teria uma história mais interessante que a de Simon. Não quero com isto dizer que o livro é desinteressante, que não é, quero apenas colocar uma questão hipotética. De facto, dos quatro irmãos, só Klaus parece desinteressante, por ter sempre uma imagem séria, sóbria e cinzenta.

Simon também não é exactamente um poço de vitalidade, nem uma personagem que espraia alegria. Logo no início, caracteriza-se numa frase: «Eu nunca tive posses, nunca fui ninguém e, apesar das esperanças dos meus pais, nunca serei.» (p. 20). E, homem de palavra, cumpre à risca o que diz.

É difícil caracterizar este romance de Robert Walser. É uma obra que exige paciência, como se por ela errássemos, à imagem da sua personagem principal. É uma escrita em que se diz tudo e, por isso, está muito distante de uma linguagem oral ou escorreita. Os diálogos são completamente artificiais e são mais uma extensão da voz do narrador do que as vozes das personagens – «tu beijas de uma maneira que dá vontade de deixar que beijes outra vez, assim como agora fazes.» (p. 58). Aqui, a voz de Klara é a voz do narrador, porque Klara está a beijar e mesmo assim a dizer que ele a está a beijar. Portanto, há imensos diálogos que não são mais do que prolongamentos da voz do narrador, como se este se apoderasse das vozes de outros para expressar coisas que sozinho não conseguiria. Por isso a voz das personagens não se distingue da do narrador e algumas falas prolongam-se por várias páginas.

Naturalmente, Os Irmãos Tanner não é uma obra para qualquer leitor. É um romance de paciência, mas também de deslumbramento, daqueles que oferecem muitas oportunidades de sublinhar, muitos parágrafos a que desejamos regressar. Uma escrita perfeccionista que se recusa a si própria em momentos: «Quando escrevemos, somos forçados à confidência imprudente. Nas cartas, a alma quer sempre ter a palavra e por regra usa-a para se recriminar. Por isso é melhor não escrever nada.» (p. 13) ou «Escreva poemas apenas quando puder mostrar-se como anjo ou como pecador. Na verdade, de preferência, não escreva poemas nenhuns.» (p. 54).

E como as personagens se confundem com o narrador, e o narrador se confunde com Walser, quase podemos imaginar o escritor combatendo esta vontade de escrever e a ceder, impotente, deixando-se arrastar pelo arrastamento de Simon.

por Gonçalo Mira

Os Irmãos Tanner
Robert Walser
trad. Isabel Castro Silva
Relógio d’Água
2009

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