Indignação, Philip Roth
Enquanto não é lançada a tradução de The Humbling no mercado Português, o penúltimo livro de Philip Roth é uma boa aposta para passar o tempo de espera. O vigésimo nono livro do futuro Nobel da Literatura, Indignação, é uma história na primeira pessoa, contada por Marcus Messner, um ambicioso estudante que, morto aos 19 anos, revê os acontecimentos da sua vida de adolescente, primeiro no que se passou na Nova-Iorque nativa e depois, na experiência universitária no Ohio rural. Essa mudança de ares fica a dever-se à opressão do pai, um talhante kosher que serviu a comunidade judaica ao longo de uma vida no bairro mas que ao caminhar para a velhice, sofre de desconfianças e ataques de pânico irracionais.
Com o ano de 1951 a marcar os acontecimentos preponderantes para o seu destino, quando os Estados Unidos estavam envolvidos na guerra da Coreia, Marcus mantém a calma ao pensar nos eventos que culminaram num acontecimento fatal. O rumo é visto como uma sucessão de tragédias aceitáveis, para quem não parecia ter outra opção de vida.
Na universidade de Winesburg no Ohio, apesar manter um elevado rendimento escolar, Marcus revela-se um estudante problemático na medida em que tende a não se adaptar a companheiros de quarto, sendo obrigado a mudar três vezes até acabar sozinho num sótão com ratos, posição que lhe agradava pois trazia a calma que ele necessitava para se concentrar nos estudos. De igual modo, e contra os incentivos de alguns colegas que se apercebem da sua situação, rejeita os pedidos para se envolver na vida académica, de mudar-se para uma fraternidade. Esta incompatibilização não é completa pela adição do factor que muitas vezes debilita Philip Roth, as mulheres. Da sua inexperiência sexual, Marcus não encontra vontade para resistir a Olivia Hutton, uma rapariga com um passado sexual bastante populado e cujos problemas incluíam desde uma vida familiar infeliz e alcoolismo a tentativas de suicídio. Relembre-se que Roth é um habitual frequentador de listas como a do ‘Bad Sex in Fiction Award’ da Literary Review que visam desencorajar a inclusão de cenas de sexo baratas e mal contadas. Essa tensão sexual habitual é então revisitada, e apesar de uma história interessante e bem desenvolvida, com os trejeitos de Roth e marcas do Judaísmo que não desaparecem (ou será esse o problema?), acaba por manchar a lista de vitórias de Indignação.
Se é assumido como ridículo um homem de idade adulta pensar intermitentemente como uma criança de 19, não serão tantas páginas sobre sexo lidas por comiseração para com o escritor septuagenário? Falar de amor, é possível fazê-lo de várias maneiras, para solucioná-lo há que fazer estragos. E o livro parece carecer de uma explosão, que chega perto do final. Cru, mortal, como de costume, Roth serve-se ainda das ‘punchlines’, que em duas linhas resumem a vida.
O Judaísmo acaba por ser uma questão fantasma que se revela preponderante para o destino do narrador. De acordo com a tradição do colégio, havia uma percentagem de sessões religiosas que os alunos se viam obrigados a assistir. Com o descrédito que sentia por tais ocasiões, Marcus tenta por várias vias livrar-se da frequência delas, preocupando ainda mais o deão encarregue das movimentações sociais dos alunos, já preocupado com a incompatibilidade de Marcus com os colegas. Ao saber da oposição às sessões religiosas, torna-se um inimigo, encaminhando-o para a única saída que Marcus temia mas que vê como o último reduto para se isolar da família e da vida universitária, a guerra na Coreia que vai no segundo ano.
Com o pai talhante consumido pelo medo de perder o filho , Marcus apercebe-se do fatalismo que ataca todos os que com ele convivem, e o final que pode ser desastroso é salvo ao referir que a religião não lhe apelou e teve mesmo de ir para a guerra ao não concluir a universidade.
Miguel Gomes-Meruje










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