Noiva, Renato Rezende
William Blake diz que “quanto mais a alma estiver próxima da Divindade, mais sombria e confusa ela fica.” Mas por que, entre duas pessoas que estão munidas das mesmas percepções sobre a vida, uma permanece no caos e a outra consegue se iluminar? Como acontece esse relaxamento? Quando, em que ponto a revelação deixa de ser um suplício e se transforma num sentimento fixo de felicidade?
Noiva, de Renato Rezende, está muito próximo da iluminação mas, por não tê-la alcançado, se cega e se debate; mas também por isso, como um satélite girando ao redor do leitor, nos deixa claro o rascunho de nossa existência escura e intolerável.
E faz isso muito bem. Na metade do livro o leitor já sabe que quando chegar à última página voltará à primeira por não acreditar que alguém conseguiu transformar numa linguagem tão clara e original questionamentos que têm tanta intimidade com os contornos abertos da verdade. E a própria linguagem também é questionada, já que o nosso satélite é um poeta em seu sétimo livro de poesia publicado.
Esteticamente o livro de Rezende parece uma prosa de vida própria que, enquanto o autor parava de escrevê-la para dormir ou tomar um café no centro da cidade, foi sorrateiramente desmembrando linhas, afastando algumas palavras para o meio ou para o canto das páginas. Algumas ilhas textuais permaneceram intactas – e maravilhosas, como essa:
Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?
A noiva que dá o nome à obra desloca-se entre o autor e o inalcançável. O Amor é defendido como uma possibilidade de existência – essa, que se anula no exato momento em que pensamos. E a ironia de Renato é de uma excelência que ofusca princípios: “Penso, logo penso que existo”, “Então tá, não sou poeta”. Defendendo o vau que existe entre um pensamento e outro (“posso ser enquanto falo?”), o autor caminha de uma margem à outra sabendo que o problema está na identificação do ser com a personalidade. “Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim. Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa. Por acaso eu sou eu”. E a partir do momento que acreditamos em uma coisa, acreditamos também no oposto dela; não há como pensar sem ser contraditório. Se a mente é a grande barreira, onde Rezende diz: “Desista de ser: seja”, ele também desiste dessa luta e deixa claro: “Já não acredito em que eu penso – sou o que penso”.
Toda essa categoria pela busca da liberdade gera uma sinceridade deliciosamente calma. “Da importância de não se ter amigos”, começa o maravilhoso poema Troll. O livro inteiro poderia passar por uma inundação e os poemas, com frases trocadas (como as casas que dias depois aparecem secas e salvas, mas mobiliadas com objetos de outras casas), não perderiam sua força e unidade. A idéia de enchente se valida muito aqui. Sem dúvida Noiva é livro escrito por alguém que foi arrastado até o Nada e voltou sem boas impressões. E por que ficaria se já sabe estar habitando o Nada, com ou sem a calamidade? Há algo de positivo nisso e que não é possível explicar, talvez nem se apegar. Porque “enquanto você se transforma em palavras, eu te transformo em pessoa”. Mas para quê, não é mesmo?
por Enzo Potel
Noiva
Renato Rezende
Azougue
2008










Comente!