Diário de Blindness, Fernando Meirelles
Fernando Meirelles é o realizador brasileiro com maior projecção internacional actualmente. Nascido em 1955 em São Paulo, Meirelles conseguiu fazer com que o mundo reparasse no seu trabalho com o filme Cidade de Deus, adaptação de um romance de Paulo Lins, que retrata o dia-a-dia pautado pela violência numa favela do Rio de Janeiro. Isto feito em 2002. Três anos depois, Meirelles adapta nova obra literária. Desta feita O Fiel Jardineiro de John Le Carré, numa produção internacional, com algumas estrelas no elenco como Ralph Fiennes e Rachel Weisz. Não tão elogiado quanto Cidade de Deus, foi, ainda assim, muito bem recebido.
Seguindo esta aparente apetência para adaptar, com sucesso, obras literárias ao cinema, o realizador brasileiro concluiu este ano o filme baseado no romance de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira.
Quem leu o romance do Nobel português, sabe que a tarefa de Meirelles não pode ter sido fácil. Neste Diário de Blindness, editado pelas edições Quasi, podemos ter uma ideia dessas dificuldades, através do relato do próprio Fernando Meirelles, e tomar contacto com as suas opções na realização, que depois podemos ver postas em prática no filme (que estreou dia 13). Há um claro esforço por adaptar não só a narrativa, mas um certo ambiente criado pelo romance. Não é tanto o estilo de Saramago que é transposto para a película, mas antes o efeito que a leitura provoca em quem lê. Isto é feito através de imagens mais abstractas, com muita luz ou desfocadas. Contudo, e a culpa pode ser atribuída a Saramago por ter escrito um livro poderosíssimo, as opções de Meirelles, que no diário nos parecem fazer todo o sentido, no filme acabam por não resultar tão bem.
Acima de tudo, o filme falha ao não conseguir transmitir a grandiosidade do romance de Saramago. Não há o sufoco de não conseguirmos ver, porque estamos a ver o filme. Não há o desespero de uma cidade afogado no caos, porque o filme se centra, durante demasiado tempo, no hospital onde os cegos estão de quarentena. E não há a brutalidade que há no livro. Este assunto é abordado no diário: Meirelles fala em várias versões do filme, umas mais violentas que outras. Fala-se em demasiada violência na versão final, mas a mim parece-me que há pouca. A verdade é que seria difícil fazer um filme com o impacto que o romance tem, sem recorrer a cenas de violência explícita.
Voltado ao diário, lêem-se de um fôlego estas cerca de oitenta páginas. O conteúdo é exactamente o que o título indica: trata-se do diário mantido por Fernando Meirelles durante a rodagem de Blindness (título original do filme). Vale a pena para quem se interessa pelo mundo do cinema e tem curiosidade em relação ao que acontece para além do produto final: o filme.
Ao longo do livro, Fernando Meirelles fala-nos sobre filmagens, actores, câmaras, narrativa, montagem, edição, etc. Sempre num registo puramente diarístico, sem qualquer pretensão artística, o que acaba por resultar muito bem. Fala das alegrias, dos problemas, das cedências que teve de fazer e de todo o processo, longo e moroso, que decorreu até chegar à versão final do filme, que teve honras de abertura no Festival de Cannes deste ano.
A leitura do Diário de Blindness levanta algumas pistas sobre aquilo que se pode ver no filme e serve de excelente aperitivo. O mais provável, no entanto, será este diário ser lido após a visualização do filme. Nesse caso, permite perceber melhor as opções estéticas tomadas por Fernando Meirelles.
O único senão deste diário é o facto de ser muito curto, com entradas muito espaçadas. Entre Agosto de 2007, que é a primeira data que surge, até Novembro do mesmo ano, há algumas entradas. A partir de então, há pouquíssimas, por vezes com intervalos de meses entre elas. Terá sido, porventura, desinteresse por parte do realizador em relação ao seu diário, ou demasiado trabalho com o processo de construção do filme. Ainda assim, é um documento muito interessante para quem se interessa pela parte técnica do processo de realização de um filme.
por Gonçalo Mira










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