Início » Críticas

Diário de Blindness, Fernando Meirelles

14 November 2008 0 Comentários

Diário de BlindnessFernando Meirelles é o realizador brasileiro com maior projecção internacional actualmente. Nascido em 1955 em São Paulo, Meirelles conseguiu fazer com que o mundo reparasse no seu trabalho com o filme Cidade de Deus, adaptação de um romance de Paulo Lins, que retrata o dia-a-dia pautado pela violência numa favela do Rio de Janeiro. Isto feito em 2002. Três anos depois, Meirelles adapta nova obra literária. Desta feita O Fiel Jardineiro de John Le Carré, numa produção internacional, com algumas estrelas no elenco como Ralph Fiennes e Rachel Weisz. Não tão elogiado quanto Cidade de Deus, foi, ainda assim, muito bem recebido.

Seguindo esta aparente apetência para adaptar, com sucesso, obras literárias ao cinema, o realizador brasileiro concluiu este ano o filme baseado no romance de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira.

Quem leu o romance do Nobel português, sabe que a tarefa de Meirelles não pode ter sido fácil. Neste Diário de Blindness, editado pelas edições Quasi, podemos ter uma ideia dessas dificuldades, através do relato do próprio Fernando Meirelles, e tomar contacto com as suas opções na realização, que depois podemos ver postas em prática no filme (que estreou dia 13). Há um claro esforço por adaptar não só a narrativa, mas um certo ambiente criado pelo romance. Não é tanto o estilo de Saramago que é transposto para a película, mas antes o efeito que a leitura provoca em quem lê. Isto é feito através de imagens mais abstractas, com muita luz ou desfocadas. Contudo, e a culpa pode ser atribuída a Saramago por ter escrito um livro poderosíssimo, as opções de Meirelles, que no diário nos parecem fazer todo o sentido, no filme acabam por não resultar tão bem.

Acima de tudo, o filme falha ao não conseguir transmitir a grandiosidade do romance de Saramago. Não há o sufoco de não conseguirmos ver, porque estamos a ver o filme. Não há o desespero de uma cidade afogado no caos, porque o filme se centra, durante demasiado tempo, no hospital onde os cegos estão de quarentena. E não há a brutalidade que há no livro. Este assunto é abordado no diário: Meirelles fala em várias versões do filme, umas mais violentas que outras. Fala-se em demasiada violência na versão final, mas a mim parece-me que há pouca. A verdade é que seria difícil fazer um filme com o impacto que o romance tem, sem recorrer a cenas de violência explícita.

Voltado ao diário, lêem-se de um fôlego estas cerca de oitenta páginas. O conteúdo é exactamente o que o título indica: trata-se do diário mantido por Fernando Meirelles durante a rodagem de Blindness (título original do filme). Vale a pena para quem se interessa pelo mundo do cinema e tem curiosidade em relação ao que acontece para além do produto final: o filme.

Ao longo do livro, Fernando Meirelles fala-nos sobre filmagens, actores, câmaras, narrativa, montagem, edição, etc. Sempre num registo puramente diarístico, sem qualquer pretensão artística, o que acaba por resultar muito bem. Fala das alegrias, dos problemas, das cedências que teve de fazer e de todo o processo, longo e moroso, que decorreu até chegar à versão final do filme, que teve honras de abertura no Festival de Cannes deste ano.

A leitura do Diário de Blindness levanta algumas pistas sobre aquilo que se pode ver no filme e serve de excelente aperitivo. O mais provável, no entanto, será este diário ser lido após a visualização do filme. Nesse caso, permite perceber melhor as opções estéticas tomadas por Fernando Meirelles.

O único senão deste diário é o facto de ser muito curto, com entradas muito espaçadas. Entre Agosto de 2007, que é a primeira data que surge, até Novembro do mesmo ano, há algumas entradas. A partir de então, há pouquíssimas, por vezes com intervalos de meses entre elas. Terá sido, porventura, desinteresse por parte do realizador em relação ao seu diário, ou demasiado trabalho com o processo de construção do filme. Ainda assim, é um documento muito interessante para quem se interessa pela parte técnica do processo de realização de um filme.

por Gonçalo Mira

Comente!

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Be nice. Keep it clean. Stay on topic. No spam.

You can use these tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

This is a Gravatar-enabled weblog. To get your own globally-recognized-avatar, please register at Gravatar.

Spam Protection by WP-SpamFree