De Três Em Pipa, Céline
Se a literatura acaba por ser uma plataforma para projectarmos os nossos ideais de prazer, um subterfúgio para causas menores, onde podemos almejar para as causas nobres da alma, o terreno do indefinido, do perdido e do inacabado, conferem uma aura de misticismo a certas obras.
Editado apenas sob o nome de Céline, apelido da avó apropriado pelo médico Louis-Ferdinand, De Três em Pipa (estranha tradução de Casse Pipe), são as primeiras 100 páginas de um livro, o terceiro romance escrito, entretanto abandonado devido à sua fuga para a Alemanha. O pequeno volume é como uma taça. Dentro dela existe uma mistura putrefacta de sangue nasal, vómito, urina, ofensas múltiplas e desonra. No entanto a taça é de ouro, embutida com um requintado ornamento que sobressairia numa montra em saldos. Parte de uma trilogia, em Casse Pipe existe ódio, sentimento que rege a vida de Céline pessoa, mas principalmente um desprezo rígido, uma dureza lasciva que popula o registo quase monocórdico deste livro.
Sente-se o peso duma guerra dúbia, fruto das experiências de Céline, que foi dispensado do exército e condecorado por bravura, relativamente às lesões sofridas, mas ignora casualidades, assume a guerra não como horror, mas como mera trivialidade. Pessimismo passivo, onde existe algo de cómico, mas também hostil, pois o leitor não é protegido por um narrador, é atingido pelas farpas de igual modo.
O registo exaltado, exuberante, é um vício que compele a leitura. Os insultos proferidos contra os recrutas são um cruzamento entre o Capitão Haddock de Tintim e registo do Sgt. Hartman de Kubrick.
Uma nota para o trabalho do tradutor Aníbal Fernandes, nesta edição da Assírio & Alvim: ainda que com uma interessante nota introdutória, creio que complica a narrativa com a sua tradução ao tornar o texto menos acessível, num Português pouco fluido e convincente.
por Miguel Meruje










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