Início » Críticas

Razão e Sentimento, Jane Austen

3 April 2009 3 Comentários
Razão e SentimentoPrimeira obra publicada de uma das autoras mais inclassificáveis dentro da literatura. Inclassificável porque não se encaixa em nenhuma escola, oscilando entre o romantismo e o realismo, lançando-se com maturidade numa voz inimitável até os dias de hoje. E é exatamente nos meio-termos que Jane Austen encontra o equilíbrio para sua prosa perfeita. Numa época marcada por guerras e revoluções, Jane volta seus olhos para a vida pacata da classe média do interior da Inglaterra, que de pacata nada tem. São epopéias internas, já que o rico e o pobre possuem certezas muito mais firmes que as de um habitante da ala intermediária (dividido pelo medo de uma e a fantasia da outra) e somente um olhar tão delicado e habitado nos pormenores como o olhar de Austen é capaz de captar o universo abundante de tramas que pulsam naquela região do globo, nessa região da vida.

Sempre transformando seus livros em acontecimentos de maior relevância íntima do que literária, Jane chegava a escrever em pedacinhos de papel para não descobrissem o que andava criando. E quando terminado um trabalho, lia para a família aos domingos na sala de estar. Família que apoiou suas construções no papel, e até especula-se que Razão e Sentimento traga um testemunho da relação de Jane com sua irmã Cassandra – onde a autora figuraria como a razão, que no livro ganhou o nome de Elinor.

O livro conta a história das irmãs Elinor e Marianne Dashwood, que se apaixonam por homens distintos e os mecanismos da vida acabam por entalhar em ambas uma mudança no caráter, instalando-se aí um processo lento e rico que Austen transcreve com suavidade e sem moralizações. A irmã que personifica a razão vê-se obrigada a demonstrar seu afeto, e a que não esconde seu afeto aprende através de muito sofrimento a podá-lo. No fim, com os casamentos, temos uma troca de motivos: a que era muito lógica aprende a casar-se com o homem por quem está apaixonada, e a irmã passional aprende racionalmente a respeitar, e posteriormente amar, um homem que por ela esperava.

O livro tem sim um valor igual, ou até maior, que a obra-prima Orgulho e Preconceito, já que seu fluxo corre menos apressado e o final acaba bem mas dependendo da perspectiva em que uma das personagens se colocar. Trata-se de uma dor que não se apaga, e que com a dicção de Jane – tão musical e respirada – tende a acompanhar as mais longas existências amansadas.

por Enzo Potel

3 Comentários »

  • Livros de Bia said:

    Parabéns pelo blog. Especialmente por citar Jane Austen.

    Qdo tiver um tempinho, visite-me!
    http://livrosdebia.blogspot.com

    Bjs

  • R.F. said:

    Bom post. Acho que “Sensibilidade e Bom Senso” se iguala a “Orgulho e Preconceito”, em termos qualitativos. Jane Austen tem uma prosa quase musical, e as suas histórias são sempre magistralmente elaboradas. A Elinor e a Marianne são personagens comovedoras – cada uma à sua maneira. A crítica social é sublime, mais uma vez.
    Costuma-se elogiar a carta do Wentworth, em “Persuasão”… eu aqui elogio o pedaço de Literatura que a autora dedicou a explicar os porquês de agir do Willoughby, transformando-o numa personagem trágica, aquando da sua visita a casa dos Palmer.

    Foi uma excelente leitura… e, já agora, fiquei surpreso por encontrar Jane Austen aqui no blog, que costumo visitar. Cumprimentos a todos os responsáveis!

  • | Dicas | Jane Austen em português said:

    [...] “Razão e sentimento” uma crítica por Enzo Potel no blogue Orgia Literária. [...]

Comente!

Add your comment below, or trackback from your own site. You can also subscribe to these comments via RSS.

Be nice. Keep it clean. Stay on topic. No spam.

You can use these tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

This is a Gravatar-enabled weblog. To get your own globally-recognized-avatar, please register at Gravatar.

Spam Protection by WP-SpamFree