Razão e Sentimento, Jane Austen
Primeira obra publicada de uma das autoras mais inclassificáveis dentro da literatura. Inclassificável porque não se encaixa em nenhuma escola, oscilando entre o romantismo e o realismo, lançando-se com maturidade numa voz inimitável até os dias de hoje. E é exatamente nos meio-termos que Jane Austen encontra o equilíbrio para sua prosa perfeita. Numa época marcada por guerras e revoluções, Jane volta seus olhos para a vida pacata da classe média do interior da Inglaterra, que de pacata nada tem. São epopéias internas, já que o rico e o pobre possuem certezas muito mais firmes que as de um habitante da ala intermediária (dividido pelo medo de uma e a fantasia da outra) e somente um olhar tão delicado e habitado nos pormenores como o olhar de Austen é capaz de captar o universo abundante de tramas que pulsam naquela região do globo, nessa região da vida.
Sempre transformando seus livros em acontecimentos de maior relevância íntima do que literária, Jane chegava a escrever em pedacinhos de papel para não descobrissem o que andava criando. E quando terminado um trabalho, lia para a família aos domingos na sala de estar. Família que apoiou suas construções no papel, e até especula-se que Razão e Sentimento traga um testemunho da relação de Jane com sua irmã Cassandra – onde a autora figuraria como a razão, que no livro ganhou o nome de Elinor.
O livro conta a história das irmãs Elinor e Marianne Dashwood, que se apaixonam por homens distintos e os mecanismos da vida acabam por entalhar em ambas uma mudança no caráter, instalando-se aí um processo lento e rico que Austen transcreve com suavidade e sem moralizações. A irmã que personifica a razão vê-se obrigada a demonstrar seu afeto, e a que não esconde seu afeto aprende através de muito sofrimento a podá-lo. No fim, com os casamentos, temos uma troca de motivos: a que era muito lógica aprende a casar-se com o homem por quem está apaixonada, e a irmã passional aprende racionalmente a respeitar, e posteriormente amar, um homem que por ela esperava.
O livro tem sim um valor igual, ou até maior, que a obra-prima Orgulho e Preconceito, já que seu fluxo corre menos apressado e o final acaba bem mas dependendo da perspectiva em que uma das personagens se colocar. Trata-se de uma dor que não se apaga, e que com a dicção de Jane – tão musical e respirada – tende a acompanhar as mais longas existências amansadas.
por Enzo Potel









Parabéns pelo blog. Especialmente por citar Jane Austen.
Qdo tiver um tempinho, visite-me!
http://livrosdebia.blogspot.com
Bjs
Bom post. Acho que “Sensibilidade e Bom Senso” se iguala a “Orgulho e Preconceito”, em termos qualitativos. Jane Austen tem uma prosa quase musical, e as suas histórias são sempre magistralmente elaboradas. A Elinor e a Marianne são personagens comovedoras – cada uma à sua maneira. A crítica social é sublime, mais uma vez.
Costuma-se elogiar a carta do Wentworth, em “Persuasão”… eu aqui elogio o pedaço de Literatura que a autora dedicou a explicar os porquês de agir do Willoughby, transformando-o numa personagem trágica, aquando da sua visita a casa dos Palmer.
Foi uma excelente leitura… e, já agora, fiquei surpreso por encontrar Jane Austen aqui no blog, que costumo visitar. Cumprimentos a todos os responsáveis!
[...] “Razão e sentimento” uma crítica por Enzo Potel no blogue Orgia Literária. [...]
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