A Luz Fraterna, António Osório
António Osório (1933) figura, juntamente com autores como João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães ou Nuno Júdice, entre os mais relevantes nomes da poesia portuguesa dos anos 70 do século passado. Num artigo publicado no desaparecido suplemento Mil Folhas (10-11-2006), Eduardo Pitta caracterizava-o como um poeta de 70, «na medida em que construiu uma obra alheada da pirotecnia de Poesia 61, tanto quanto do refrão neo-realeiro dos poetas do Novo Cancioneiro.» Por nunca ter abdicado de temas universais como o amor e a morte, a infância ou a amizade, o poeta que publicava A Raiz Afectuosa, o seu primeiro livro, em 1972, já com quase quarenta anos de idade, afastava-se de temáticas dos anos 60 que muito se relacionavam com a oposição ao Estado Novo. Homero, Dante, Camões, Goethe, Antero, Cesário, Pessanha, Pascoaes, Rilke, Cecília, Drummond, Auden, Lorca, Borges e italianos como Lugaretti ou Quasimodo, são alguns dos seus autores preferidos. Ao longo da sua obra, inúmeras são as referências a poetas clássicos, como Luciano de Samósata ou Leónidas de Tarento. Mesmo nos anos 90, quando a sua atenção se virou para uma prosa que, para Pedro Mexia, «tanto pode funcionar no registo da crónica, como da pequena ficção ou do mais tradicional poema em prosa» («Ofício da Prosa», DNA, 13/2/1999), as suas referências permaneceram clássicas. O próprio poeta referia, numa entrevista concedida a Ana Marques Gastão, publicada neste volume agora lançado pela Assírio & Alvim, que a sua tentação aforística não vai beber autores menores que Bashô.
Filho de mãe italiana (as referências à literatura italiana e a lugares italianos são recorrentes na obra do autor) e de pai português, bastonário da Ordem dos Advogados Portugueses entre 1984 e 1987, presidente da Associação Portuguesa para o Direito do Ambiente entre 1994 e 1997), director, a partir de 1998, do Foro das Letras, revista da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas, e agraciado em 1996 com a Medalha de Honra da cidade de Setúbal, António Osório tem dezoito livros publicados, de poesia e ensaio, treze dos quais editados no Brasil, em Espanha, Itália, França e Bélgica. Recebeu os prémios Município de Lisboa, em 1983 e 1984, e o Pen Clube de 1991. Em Janeiro de 2009, foi-lhe concedido o Prémio Inês de Castro, pelo conjunto da sua obra.
Com a reunião de toda a poesia (produzida de 1965 a 2009) de António Osório num volume a que se deu o nome de A Luz Fraterna, é possível acompanhar a evolução de uma poética em que desde muito cedo imperou, como refere Eugénio Lisboa no prefácio, a «claridade», a «animalidade primitiva» e a «frescura primordial» da poesia dos índios da América (logo em A Raiz Afectuosa se encontram poemas como «Morte do Inca Capac»:
Descansa no corpo de seu Pai
e cada dia dá uma volta
pelo mundo:
precisa o seu povo de socorro e ele partiu
puro de angústia,
como criança
ou homem
ou deus generoso.
Também a partir das múltiplas citações de autores que vão aparecendo no início de cada livro se constata que existe uma atracção muito forte do poeta pela génese da Humanidade. Se, por exemplo, em A Ignorância da Morte (Aldeia de Irmãos / A Matéria Volátil) (1978), se cita Camões («Começa o mundo, enfim, pela ignorância»), em Planetário e Zoo dos Homens (1990), aparecem frases de Cecília Meireles («Dizer com claridade o que existe em segredo») e de Plotino («Por que razão o céu se move num movimento / circular? Porque imita a Inteligência») que traduzem o interesse, mais pagão do que religioso, do poeta pelo brilho ignorante que envolve as origens de um mundo habitado por animais perdidos e erráticos. No Zoo, sítio em que «Apenas a alegria das crianças / o purifica de tanto mal», «compra-se o bilhete / a um sujeito / oito horas / dentro de pequena jaula.» (poemas incluídos em Planetário e Zoo dos Homens). Mesmo em livros mais recentes como D. Quixote e os Touros (1990), se dá conta do medo, do sofrimento e dos receios dos animais (touros e homens) que têm de viver sempre à sombra da desconhecida Morte: «Suas páginas lapidares sobre o medo do toureiro na biografia de Belmonte, escrita por Nogales, um dos raros grandes livros “taurinos”, e começam assim: “No dia em que se toureia cresce mais a barba. É o medo. Simplesmente, o medo. Conheço-o bem. É um meu amigo íntimo…”». De forma semelhante, em livros como Adão, Eva e o Mais (1983), são explorados receios e frustrações que tudo têm que ver com o vazio que envolve a criação:
Expulsos, Deus ficou infinitamente só.
Saudades de Eva, do estreito, penetrante corredor.
Adão, sua imagem mal-afortunada.
Deus, castigando, punindo-se.
A Morte é um mistério para o qual se procuram respostas. Em «Mãe que levei à terra» (incluído em A Ignorância da Morte), a criança que cresceu olha para as memórias da infância mas não encontra a mãe desaparecida:
Mãe que levei à terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezanove anos,
eu não existia, meu Pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?
A criança crescida não pode esperar pela chegada dos pais a casa, porque eles morreram, e por isso sofre desmesuradamente com o esquecimento em que ela própria se vai tornando:
Olha para trás o monstro corrompido
por trinta anos de degredo,
por tanta ladainha, tanta gente,
tamanhos e tamanhos infortúnios,
lentamente destruídos por tanta
ocultação, desprezo, tanto medo e raiva,
que não encontra o próprio rosto de criança.(poema de A Raiz Afectuosa).
De A Luz Fraterna, espere-se uma escrita que evita extremos emocionais, como a paixão erótica, a raiva, a paixão, o ódio ou o êxtase, que antes prefere exprimir afectos mais subtis, como o crescimento das crianças (atente-se nestes versos de «Gota-Serena», publicado em Décima Aurora (1982): «Talvez algum / destes meninos / se recorde de mim, / sofredor de cataratas. / Alegra-me ser eu, / pela cidade, solicita / Diana de crianças»), o afecto por familiares, a nostalgia ou a melancolia, como em «In Memoriam», incluído em A Raiz Afectuosa:
Tenho três anos e tu, Pai, és jovem,
grande, senhor do mundo,
deus docemente temido desde o início.Assim te amo agora sem lágrimas.
Que deste modo teus netos
um dia se recordem de mim,
na tua, minha e deles
pura ignorância da morte.
A partir de um estilo lírico, apoiado no verso livre, o que se explora quase sempre é o lado emocional e afectivo da poesia humana, num movimento que oscila entre tormento e ruína e prazer e esperança. Citando Taborda de Vasconcelos: «Linguagem serena, depurada, quase austera mas envolvente, e sempre de elevada qualidade estética (…); a sua adjectivação escassa, porém exacta, certeira e definidora, bem como a arte exímia dos retratos, a delicada pintura das imagens, atribuem aos seus versos uma limpidez quase imaterial» («António Osório», Enciclopédia Verbo, 21, 1985). Esta arte exímia dos retratos facilmente se pode encontrar num poema como «Ode aos Engraxadores» (Décima Aurora):
Seria justo alguém
lavasse um dia os pés aos engraxadores.Limpam, humedecem
com bálsamo o que foi pele
de outro animal
provavelmente extinto.Utilizam
o que somente
abelhas regurgitam,
parte acessória, fabricante
de sua casa.Faltam-lhe dentes
e sapatos. Sonham
enquanto as veias ficam trémulas.
Dignos
da mais completa prosternação.
por Paulo Rodrigues Ferreira
A Luz Fraterna
António Osório
(Prefácio de Eugénio Lisboa)
Assírio & Alvim
2009










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